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2004 |
JULHO - QUESTÃO DE SEGURANÇA
Quando o pior acontece
Ilha de conforto e privacidade no meio do trânsito,
o carro também vem se tornando alvo da violência.
Saiba como agir – ou o que não fazer –
diante de um acidente ou ameaça de assaltante
Guia de sobrevivência
Mesmo um motorista cuidadoso e cidadão consciente
pode ver-se envolvido em uma situação crítica
como acidente ou seqüestro. Esse pequeno guia não
garante imunidade a ninguém, mas as sugestões
dos especialistas e uma certa dose de bom senso podem ajudar
a evitar conseqüências mais graves.
Bons tempos aqueles em que dirigir defensivamente exigia
só atenção ao comportamento de outros
motoristas e a violência no trânsito restringia-se
aos acidentes. Hoje, quem dirige por ruas, avenidas e estradas
é obrigado a estar ainda mais atento. Não
há dados oficiais, no Brasil, sobre a violência
dirigida especificamente a quem está em um carro.
Depois das "gangues da batida" nas grandes cidades,
ou das pedras lançadas de viadutos nas estradas,
o crime se sofisticou tanto quanto os automóveis.
Em ações envolvendo armamento pesado e muita
ousadia, o ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel,
foi arrancado de um carro blindado e depois assassinado.
O publicitário Washington Olivetto também
foi tirado de um veículo blindado, mas seu caso teve
desfecho feliz, com a libertação após
53 dias. Casos assim atraíram os holofotes para esse
tipo de ataque e revelam que nem mesmo celebridades e autoridades
estão livres do perigo.
Tentativa de assalto - Além de
nunca reagir diante da abordagem de um assaltante, todos
os especialistas sugerem que jamais se tente arrancar com
o carro. Movimentos bruscos também devem ser evitados.
O consultor Lucas Blanco recomenda cautela na hora de entregar
o que o bandido exige: "Sempre avise antes o que você
vai fazer", orienta. "Se o dinheiro estiver no
bolso, você deve falar: 'Olha, o dinheiro está
no bolso, posso pegar?' O mesmo cuidado tem de ser tomado
para qualquer objeto que o assaltante peça dentro
do carro."
A mistura da sensação de insegurança
com a tarefa de dirigir é explosiva, diz o sociólogo
Paulo Fragoso Montagnier: "A tendência é
de um aumento de acidentes de trânsito." Montagnier,
que prepara uma tese de mestrado na Universidade de Sorbonne,
na França, sobre "distúrbios e tensões
sociais", afirma que "o motorista assustado fica
ainda mais agressivo, seu instinto o leva a realizar manobras
arriscadas, como passar o sinal vermelho ou ultrapassar
os limites de velocidade, o que multiplica a possibilidade
de acidentes."
Não há muitas maneiras de combater a violência
a não ser com policiamento ostensivo nas áreas
de maior risco, afirma Montagnier. "O crime procura
brechas na atuação da polícia até
achar seu espaço." Citando como exemplo o que
ocorre no Brasil, ele repete a teoria de que foi o aumento
das ações de proteção a bancos
e transporte de valores que levou os bandidos a procurar
outras formas de atuação. Além do seqüestro,
passaram a agir em ruas e estradas, onde praticam os chamados
"crimes da moda", como seqüestros-relâmpago
e abordagens a carros importados.
Como antídoto à situação, o
instrutor Diógenes Dalle Lucca defende o princípio
da "educação para segurança".
De acordo com ele, é possível diminuir o risco
de ser assaltado nos grandes centros urbanos, desde que
pequenas atitudes sejam adotadas. "O criminoso, de
maneira geral, é um grande oportunista, sempre à
espreita da melhor vítima", afirma. O primeiro
mandamento para o motorista, orienta, é a atenção:
"Na maioria dos casos, as vítimas são
pegas de surpresa, pois estão com o corpo no carro,
mas a cabeça em qualquer outro lugar, menos no trânsito",
afirma o instrutor do Drive Training Protection, curso especializado
da BMW.
Perseguição na estrada - Fugas
milagrosas costumam dar certo apenas em cenas dos filmes
de ação, mas na vida real dificilmente terminam
bem, na opinião do instrutor Roberto Manzini. Segundo
ele, bandidos nunca utilizam só um veículo:
"O motorista sempre estará em desvantagem. E
para fazer manobras de despiste é preciso estar bem
treinado, a fim de diminuir o risco de acidentes."
Lucas Blanco lembra mais um motivo para recomendar cautela
diante de uma abordagem por outro veículo: "Quando
a vítima tenta escapar com o carro, para o bandido
a pessoa está reagindo e ele não vai pensar
duas vezes em atirar em qualquer parte do automóvel
a fim de fazê-lo parar." De acordo com Blanco,
para motoristas sem treinamento especializado, os riscos
de uma rendição são consideravelmente
menores do que tentar fugir.
Consultor de segurança na área empresarial,
Lucas Blanco também aposta que algumas regras podem
tirar o fator-surpresa do bandido. Blanco trabalha para
a Brasiliano e Associados, empresa com 12 anos no segmento
e uma das pioneiras em tratar do tema segurança como
especialização universitária, organizando
cursos de pós-graduação com títulos
como o MBS (Master Business Security).
Algumas de suas recomendações já são
conhecidas, como travar as portas e não circular
com vidros abertos. Outras exigem mudanças de hábito
e condicionamento, como a escolha da faixa de rolamento
ao parar no sinal vermelho. De modo geral, afirma Blanco,
tende-se a escolher uma faixa vazia ou com menos automóveis,
o que nem sempre é a melhor alternativa. O consultor
sugere evitar a da esquerda, onde o motorista fica mais
vulnerável a uma abordagem. "A melhor faixa
é a central, porque dificulta a movimentação
do bandido e o deixa mais exposto."
Lugares impróprios - Vale mais
estragar de vez um pneu furado que se arriscar a uma substituição
pelo estepe em um lugar ermo. Especialistas sugerem que,
diante da suspeita de uma pane no carro, é melhor
fazer o possível para prosseguir até um posto
de serviço ou área mais movimentada.
Outra sugestão de Blanco é manter distância
de pelo menos meio carro em relação ao da
frente: "Além de expor o assaltante, o motorista
tem espaço para manobrar caso perceba alguma movimentação
suspeita." Controlar a velocidade do carro antes do
cruzamento, principalmente à noite, para evitar longas
paradas, também é desejável. Mas, como
Diógenes Lucca, Blanco lembra que esses pequenos
cuidados não funcionam se a atenção
faltar.
De acordo com o consultor, geralmente há sinais
de que uma abordagem vai acontecer. Eles vão da aproximação
de suspeitos até uma marca deixada no veículo
que sirva de referência para um cúmplice que
aguarda à frente. "Boa parte dos veículos
assaltados é marcada antes", diz Blanco. Isso
ocorre principalmente nas vias com vários semáforos
em seqüência. "Por isso, é imprescindível
estar atento a toda movimentação de pedintes,
vendedores ou simplesmente pessoas que passem ao lado do
veículo." Se houver alguma suspeita, orienta
o especialista, a saída é usar um caminho
alternativo.
Perseguição urbana - Se
houver uma abordagem em movimento, a recomendação
dos especialistas é para que os motoristas não
tentem fugir. Quem suspeita que está sendo perseguido,
no entanto, tem uma chance de "escapar" se conhecer
o caminho muito bem. "É importante memorizar
as delegacias, postos policiais e, ao mesmo tempo, os cruzamentos
perigosos, os pontos de maior incidência de assaltos",
ensina o instrutor Diógenes Dalle Lucca. Ele sugere
ainda evitar a repetição do percurso para
o trabalho e para casa: isso atrapalha a tentativa do bandido
de esquadrinhar a rotina de uma possível vítima.
Outra recomendação de Blanco é a discrição.
Deve-se evitar a ostentação de correntes,
relógios e anéis. Circular com o talão
de cheques, cartões de crédito e muito dinheiro,
nem pensar. Segundo ele, a experiência mostra que,
nesses casos, o bandido tende a prolongar os assaltos e
seqüestros. "Se o cara pega uma vítima
que anda com vários cartões de crédito
e um bom dinheiro na carteira, ele pensa: 'Epa, aí
tem mais, vou fazer a festa'." Para o consultor, a
orientação de andar só com o necessário
e separar o "dinheiro do ladrão" na carteira
deve ser seguida à risca.
Lucca ainda recomenda que o motorista controle informações
sobre sua rotina, evitando colar adesivos de escolas ou
academias de ginástica. E desaconselha placas de
carro personalizadas: "Ao se deparar com uma placa
BIA 1982 e o adesivo de uma instituição de
ensino, o bandido presume que a pessoa se chama Beatriz,
tem 20 anos e freqüenta tal escola", explica.
O especialista sugere evitar a repetição dos
percursos e ainda conhecer bem e planejar o itinerário,
estudando os pontos seguros e os de risco. Sair e voltar
de casa exige atenção: "Quando estiver
chegando em casa, dê uma volta a mais no quarteirão
e preste atenção nas redondezas para ver se
não há alguém em atitude suspeita."
Acidentes graves - Levantamento do Departamento
Nacional de Trânsito mostra que os desastres de carro
estão entre as cinco principais causas de morte nas
grandes cidades brasileiras. Se você for envolvido
em um acidente, o primeiro passo é dar toda a atenção
possível à vítima, seja outro motorista
ou pedestre. "O abandono do local da ocorrência
é considerado omissão de socorro e agrava
a situação do responsável, em caso
de processo", afirma o advogado Fernando Gutierrez
de Almeida.
O Código de Trânsito Brasileiro prevê
detenção de seis meses a um ano ao envolvido
que não prestar assistência à vítima.
Mas ajudar não significa mexer nos feridos: "A
primeira providência é acionar a equipe de
resgate do Corpo de Bombeiros pelo 193", diz Lucas
Blanco. A tentativa inadequada de remoção
de um acidentado pode agravar os ferimentos. É possível
verificar o grau de consciência do acidentado, o que
auxilia os socorristas em uma primeira triagem no local
da ocorrência. Para isso, os Bombeiros recomendam
uma série de perguntas simples, como o nome, a idade,
se é solteiro ou casado. O boletim de ocorrência,
nesses casos, é obrigatório. As primeiras
providências são tomadas no local do acidente,
com o auxílio da Polícia Militar, que indica
o distrito mais próximo e encaminha os envolvidos.
Apesar das medidas preventivas, o motorista nunca estará
totalmente garantido contra tentativas de assalto. Nesse
caso, a atitude correta é "não reagir".
O instinto de toda pessoa em uma emergência, diz Lucca,
é tentar se defender: "Mas é só
depois de passar por momentos de risco de morte que as vítimas
param para refletir que tiveram uma arma apontada para a
cabeça. O mais importante não é o que
o criminoso leva, mas o que ele deixa", afirma.
O instrutor Roberto Manzini concorda, lembrando que algumas
"soluções" adotadas por motoristas,
como a de manter a primeira engatada em uma parada de farol,
não são adequadas. Desde 1998 Manzini dirige
um centro de pilotagem em São Paulo voltado à
direção preventiva, para pessoas em geral,
e de especialização, para motoristas de empresas
ou empresários.
Nas aulas, instrutores simulam cenas de violência
urbana e sugerem respostas adequadas: "Manter a primeira
engatada é uma grande besteira. Quando o bandido
já está no seu vidro, não dá
tempo para nada e a experiência mostra que o motorista
leva a pior nesses casos." Se a pessoa se assustar
com uma abordagem, o carro pode dar aquele soquinho e o
perigo de o bandido reagir é maior, lembra Manzini.
Objeto contra o carro - Se o automóvel
for danificado por obstáculos colocados na pista
ou arremessados de viadutos ou passarelas, a sugestão
de Roberto Manzini é prosseguir enquanto for possível.
"Não pare o carro, siga até onde puder",
diz o instrutor de pilotagem: "Não importa se
o carro está com o pneu furado, se você não
consegue passar dos 20 km/h, se o pára-brisa está
quebrado. Se você conseguir, pare somente em um posto
de auxílio ou próximo à Polícia
Rodoviária."
Quem circula por estradas também deve estar atento,
na opinião de Blanco, que recomenda evitar viagens
noturnas. A maior parte das armadilhas preparadas por bandidos
funciona à noite e conta com dois trunfos: a piora
das condições de visibilidade para o motorista
e a diminuição do volume de tráfego.
De acordo com os Comandos de Policiamento Rodoviário
Estadual e Federal, a ocorrência mais comum contra
carros é a colocação de obstáculos
na pista ou de objetos atirados de passarelas e beiras de
estrada.
De acordo com Blanco, a vulnerabilidade nas rodovias é
ainda maior do que nas cidades. "Os postos policiais
e os centros de apoio distam quilômetros um do outro,
limitando os recursos de prevenção."
Nesse caso, a recomendação é que o
motorista faça uma espécie de gerenciamento
de risco. Escolher o horário da viagem, pensar em
rotas alternativas, informar-se dos pontos de maior risco
e saber quais são e onde ficam os principais postos
e telefones de auxílio são algumas das atitudes
que podem melhorar as condições de segurança.
Seqüestro-relâmpago - Um dos
pesadelos urbanos da atualidade tornou-se real: o inimigo
está dentro de seu carro. O comportamento da vítima
e a relação com a pessoa que a domina é
o ponto-chave, na opinião de Lucas Blanco, para que
tudo termine sem conseqüências graves. Humildade
é a palavra certa, segundo ele: "Evite olhar
diretamente ou encarar o bandido, pois ele não quer
ser reconhecido e pode se sentir intimidado. E nunca é
demais tratá-lo de senhor. " Não se trata
de nenhuma dica de etiqueta, justifica Blanco, mas uma demonstração
de que você sabe que o controle está com o
bandido e se dispõe a colaborar. Conversar com o
seqüestrador exige sensibilidade.
A vítima precisa avaliar o momento certo de tentar
o diálogo. "Se o bandido estiver calmo desde
o início, ótimo", afirma o consultor.
"Deixe claro que você vai cooperar." Caso
contrário, a idéia é conquistar aos
poucos a confiança, esperar o momento certo para
falar, sempre com um tom de voz ameno. Demonstrar nervosismo
para um bandido exaltado não é recomendável,
pois ele tende a reagir com mais violência. Outra
recomendação, para os casos em que a vítima
é mantida na direção do carro: evitar
as manobras bruscas e sempre pedir orientação
do caminho e procedimentos a seguir. "É importante
que o bandido tenha a impressão de que está
no comando total da situação", afirma
Beto Manzini.
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