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2004 |
JULHO - COMPORTAMENTO
Superstição
do motorista sucumbe à violência
Da fitinha do Senhor do Bonfim até imagens
de santos e guias usadas em umbanda, significativa parcela
dos motoristas brasileiros nunca abriu mão da superstição
como forma de garantir uma proteção extra
aos perigos que rondam o volante do veículo. Entretanto,
a violência urbana, atualmente numa escalada que já
beira as raias do absurdo, mudou o perfil de quem dirige.
Dez anos atrás, enquanto uns procuravam a ajuda espiritual
para afastar os riscos apenas de um acidente de trânsito,
outros se mostravam mais supersticiosos: bastava cruzar
com um gato preto na primeira esquina para retornar, deixar
o automóvel na garagem e andar de ônibus naquele
dia.
Atualmente, os motoristas, com raríssimas exceções,
já não pensam mais somente na possibilidade
de uma colisão. Os amuletos ganharam um novo significado,
com dimensão maior para os perigos não do
volante, mas dos assaltos, com destaque especial para os
seqüestros, que ocorrem normalmente ao parar no semáforo.
A crendice popular extraída quase sempre do folclore
brasileiro praticamente não existe mais, sucumbiu
frente à violência urbana. O comportamento
do motorista mudou radicalmente por imposição
da criminalidade, da falta de segurança pública
atrelada à certeza da impunidade por parte do autor
do crime. A nostalgia proporcionada pelos passeios noturnos
de carro deu lugar à psicose e o ato de dirigir em
determinadas regiões e horários transformou-se
em síndrome de medo.
No verdadeiro arsenal que os motoristas carregam em nome
de maior proteção divina também é
possível constatar a transformação
do perfil de quem possui carro. Na década passada,
a figa e o pé de coelho autêntico eram amuletos
comuns, usados como chaveiros ou simplesmente colocados
no retrovisor interno. Podiam ser comprados em qualquer
caixa de bar, padaria ou em bancas de camelôs. Atualmente,
isso não acontece mais.
O número 13 e o gato preto da mesma forma estavam
mais presentes na mente do motorista daquela época
do que na do motorista contemporâneo. Não importava
se representavam sorte ou azar. O fato é que eram
símbolos com raízes originárias do
folclore. Atualmente são poucos aqueles que ainda
guardam alguma opinião pelo número ou para
o felino.
Mauro Marson, profissional de vendas, confessa ser um motorista
supersticioso. Usa no seu carro uma imagem imantada de São
Cristóvão, o protetor dos motoristas, e nunca
sai com o veículo antes de fazer o sinal da cruz.
“São duas formas de pedir proteção,
mas também tenho fé em amuletos”, diz.
Marson acha que o número 13 não dá
azar (embora seu número de sorte seja o 4), e no
retrovisor do veículo tem um Yanoraku, amuleto japonês
que traz sorte.
Para Ricardo Luiz Teixeira, proprietário de posto
de gasolina, a sua proteção contra acidente
e, principalmente, assalto e seqüestro, está
na fita amarela acompanhada de uma folha de louro que traz
junto aos documentos do veículo, ambas substituídas
a cada Ano- Novo. “Nunca fui vítima da violência
urbana, fato que por si só considero sorte”,
afirma.
Vale tudo para ganhar proteção -
Agosto é sempre o mês em que as pessoas
ficam mais suscetíveis às crendices populares.
Na verdade, as condições climáticas
adversas favorecem os acidentes rodoviários e aéreos,
mas muita gente credita tais ocorrências ao mês
do desgosto, do cachorro louco e até do lobisomem,
como estabeleceu o folclore.
Boa parte acredita que a sexta-feira, dia em que Jesus
Cristo foi crucificado, seja o pior da semana. Para outros,
o azar atribuído ao 13 – e, por isso, muitos
o evitam – deve-se ao número de pessoas que
se sentaram à mesa da Santa Ceia. Seja como for,
o fato é que vale tudo para o motorista conseguir
uma proteção extra quando está ao volante
do carro.
São pequenas coisas que, vindos da natureza ou da
cabeça do motorista, transmitem confiança.
Por isso, a maioria defende a tese de que é melhor
se garantir do que arriscar. Afinal de contas, não
custa nada pensar positivamente e ter sempre em mente que
o que é azar para uns pode ser sorte para outros!
Pensando desta forma, o comerciante Manuel Cardoso carrega
crucifixo e imagem, não coloca o carro em movimento
sem antes fazer o sinal da cruz e vê com bons olhos
o número 13, porque até hoje o dia 13 só
lhe trouxe sorte. A advogada Lenira Cezário, por
sua vez, não faz o sinal da cruz, mas tem no seu
automóvel uma guia usada em umbanda, devidamente
cruzada pelas entidades. Lenira, como Manuel, acha que o
13 dá sorte, porque todos os números têm
energia própria. Enquanto isso, o designer gráfico
Gilberto Fernandes Neves Filho e a administradora de empresas
Claudia Barboza Assunção não abrem
mão do terço no retrovisor. Mas Gilberto se
esquece de que a fitinha do Senhor do Bonfim que mantém
na placa do carro pode resultar em multa se o fiscal do
trânsito interpretá-la como forma de obstruir
a identificação.
Cada um a sua maneira, o que vale mesmo é o pensamento
positivo. E um bom exemplo neste sentido foi dado pelo piloto
brasileiro José Carlos Pace, que usava em seu capacete
o desenho de uma flecha apontada para baixo. Ao consultar
uma mãe-de-santo, recebeu o seguinte veredicto: “Se
não colocar a flecha para cima, nada feito”.
Supersticioso, mandou inverter a pintura não de uma,
mas de duas flechas... Rapidamente tornou-se grande astro
da Fórmula 1 e venceu o Grande Prêmio do Brasil,
em 1975.
Quem já rezava agora reza mais - Quem
pendura uma fitinha do Senhor do Bonfim, um terço
ou um santinho no retrovisor do carro, o que pensa disso?
Consegue realmente afastar-se de tantos azares a que estamos
expostos a todo momento? É difícil dizer.
Um fato, porém, é certo: o time dos que preferem
se garantir é bem maior do que o dos incrédulos.
Uns mais, outros menos, como é o caso da vendedora
Sandra Mantovani Alves, que não se considera supersticiosa,
não usa amuletos, fitas ou imagens e também
não faz o sinal da cruz antes de sair com o carro.
“Acho que o número 13 dá sorte. Entretanto,
utilizo a minha energia em qualquer coisa que faço”,
afirma Sandra.
Com a assistente administrativa Conceição
Farias a coisa é bem diferente, até porque
ela tem motivo para ser assim. Considera-se supersticiosa,
carrega uma fita branca e a imagem de um santo, mas sempre
fez uma prece antes de sair com o automóvel. “Se
eu já rezava antes de ocorrer o assalto de que fui
vítima, agora rezo um pouco mais. Acho que o número
13 não representa nem sorte, nem azar”, conta
Conceição.
Para alguns pilotos, porém, o número 13 teve
e ainda tem forte relação com sorte e azar.
Geralmente, ele não é usado para identificação
dos carros. E quando foi usado, não deu certo. Chico
Serra, por exemplo, dez anos atrás correu um campeonato
da Stock-Cars com o número. Diante da falta de sucesso,
trocou-o e, na última etapa, sofreu um acidente que
poderia ter sido gravíssimo. “Ainda bem que
tinha jogado o 13 fora”, disse o piloto, ao sair ileso
da colisão.
Foi-se o tempo também em que muitos caminhoneiros
pregavam uma ferradura de sete furos na traseira do veículo
– uma ferradura normal geralmente tem apenas seis
furos e, para trazer sorte, a crendice popular dizia que
precisava ter sete. Uma pessoa supersticiosa é aquela
que, a qualquer momento, substitui uma entidade santificada
por um objeto, acreditando que isso afastará o mal
ou qualquer influência negativa sobre o que não
se tem controle. Originária do latim, a palavra superstição
significa receio em vão ou culto falso. Portanto,
ser supersticioso é bem diferente de ser religioso.
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