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2004 |
JULHO - VISÃO DE MERCADO por PAULO POYDO
Tendências ou novas dúvidas
de mercado
Os fabricantes investem em motores bicombustíveis,
o mercado se anima com o fato novo, mas o consumidor sai
ganhando com essa história?
Na prática, o comprador do automóvel os
fabricantes ganham momentaneamente, pois há um ligeiro
aquecimento nas vendas, uma vantagem comparativa em relação
ao estagnado mercado automotivo brasileiro. Nem a redução
do IPI estimulou as vendas de veículos até
dois litros de cilindrada. Fica claro que o incentivo fiscal
não é o remédio para o mercado, pois
em dois anos e meio nada mudou na parcela de veículos
comercializados entre 1000 e 2000 cm³.
Em trabalho recente da Consultoria Trevisan, mostra que
71% do mercado brasileiro de veículos foi formado
por veículos com custo até R$ 35.000,00. Os
mal fadados “populares” ainda representam uma
fatia considerável do pobre mercado brasileiro. Esse
modelo está comprovadamente fracassado, é
preciso pensar uma política eficaz e duradoura para
o segmento, desde o fabricante até o mercado reparador
e a questão não pode ser limitada ao preço
puro e simples e a confirmação disso tudo
é que a definição do modelo é
realizada pelo imposto cobrado.
Os modelos de 1000 cm³, o popular monstrinho nacional,
visto que ninguém compra uma coisa dessas lá
fora, responde pela quase totalidade do mercado interno,
precisa ser repensado. Temos de parar com esse discurso
enfadonho do popular e partir para o caminho efetivo de
mercado consumidor global, o modelo subcompacto, bom, de
qualidade e condição de ser comercializado
em qualquer mercado competidor, capaz de beneficiar o Brasil
nas exportações e agregar qualidade aos modelos
aqui produzidos. A falta de uma política séria
e duradoura faz do mercado automotivo brasileiro o verdadeiro
samba-do-crioulo-doido. Aí, no afã de tapar
o sol com a peneira, temos os flexíveis.
Segundo o novo presidente da ANFAVEA, Rogélio Golfarb,
competente engenheiro com mais de 10 anos de Ford, o momento
é de ação, senão ficaremos a
margem do processo novamente, visto que o nível de
investimento do setor no Brasil já vem caindo, o
que coloca em risco a modernização dos produtos.
De fato, General Motors, Volkswagen e Renault excluíram
as fábricas brasileiras dos investimentos nas novas
gerações dos modelos Astra, Golf e Scénic,
já lançadas na Europa. O ritmo de produção
anual de veículos no Brasil soma hoje 600 mil unidades
menos do há seis anos, quando a indústria
automobilística decidiu reforçar investimentos
no país para ampliar sua capacidade.
O Brasil poderia produzir hoje 3,2 milhões de veículos
por ano, mas a indústria consegue preencher apenas
41% desse total com vendas ao mercado interno e mais 16%
com exportações. Há, assim, uma ociosidade
de 43%.
Da década de 80 até o ano passado, as montadoras
e os fabricantes de autopeças investiram um total
de US$ 44 bilhões. O país tem hoje 26 montadoras,
um dos maiores números de marcas do mundo. Os setores
de veículos e peças somam 13,5% do produto
interno bruto industrial, com o faturamento anual de US$
21 bilhões e arrecadação direta R$
10 bilhões de impostos. Montadoras e indústria
de autopeças exportaram no ano passado o equivalente
a US$ 10,2 bilhões.
Com a importação US$ 5,5 bilhões,
esse setor foi responsável por 20% do superávit
da balança comercial brasileira, num total de US$
4,7 bilhões. Os dirigentes vêm tentando usar
a grandeza dos números do setor para tentar fechar
com governo federal acordos para receber incentivos tributários.
Enquanto ficarmos nessa marcha, com uma política
tacanha e sem horizontes não sairemos da perseguição
do rabo, brigar por redução tributária
sem um projeto contínuo, de longo prazo para o setor
é chover no molhado. Uma pena que o próprio
setor não enxergue isso, vai acabar atirando no próprio
pé...
Agora a nova onda... Os flexíveis representam uma
vantagem competitiva?
Se o usuário deseja gastar menos na hora de abastecer,
escolhe o álcool. Se precisar de maior autonomia
(viagens, por exemplo), opta pela gasolina (um ganho de,
aproximadamente, 25% em relação ao álcool).
Se buscar performance, vai de álcool em virtude de
um desempenho melhor do veículo. Optar pelo uso exclusivo
do álcool só se o preço for de até
70% do preço da gasolina. Esse é o panorama
dos flexíveis.
Uma questão que muito me incomoda é o fato
de o consumo é elevado em ambas às utilizações
e o desempenho “piorado” quando comparado às
versões “monocombutíveis” seja
álcool ou gasolina. Parafraseando o Presidente da
Citroën, Sérgio Habib, que compara o flexível
ao pato, “que nada mal, voa mal e anda mal”,
mas faz tudo isso...
Não há um bom aproveitamento energético
dos combustíveis e no momento os modelos, na minha
opinião, que melhor se ajustam à demanda são
os da GM, devido ao uso de maior taxa de compressão
em valores intermediários entre o álcool e
gasolina. Agora é esperar pela Ford, que apresentou
primeiro e ficou por último.
Segundo afirmações do presidente da Ford,
Antônio Maciel Neto, os modelos Ford terão
o melhor sistema derivado de motores inteiramente revistos.
É aguardar para ver.
Finalizo com uma pergunta, e os modelos de passageiros
movidos a diesel? Continuaremos na contra-mão do
mercado? Ou vamos nos conformar com essa legislação
permissiva que aceita alguns modelos de SUV’s e pick-ups
“acertadas” para o uso do diesel, veículos
usados como veículos de passeio/passageiros no lugar
de servirem como utilitários de serviço.
Paulo Roberto dos Santos Poydo
é certificado pela ASE, diretor técnico do
Departamento de Transportes da Assembléia Legislativa
do Estado do Rio de Janeiro, instrutor da Qualify Treinamento
e Consultoria Automotiva - (21) 571-4040. |