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2004 |
AGOSTO - EM DESENVOLVIMENTO
O diesel do futuro
A partir de 2006, o combustível comercializado em
todo o país emitirá menos poluentes graças
à redução dos níveis de enxofre.
Em 2009, o diesel mudará novamente e terá
sua capacidade de lubrificação mantida por
meio de aditivos.
Boa parte da degradação do
meio ambiente das grandes cidades se deve aos poluentes
emitidos por veículos, sejam eles carros movidos
a álcool ou gasolina, picapes, caminhões ou
ônibus a diesel. No caso do diesel, além da
liberação da fumaça preta propriamente
dita, existe o problema da chuva ácida, resultante
da combinação da água na atmosfera
com o óxido de enxofre expelido na combustão
do diesel.
Para minimizar os problemas causados pela
emissão de poluentes por parte dos veículos
movidos a diesel, o CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente)
determinou que as refinarias serão obrigadas a reduzir
drasticamente o teor de enxofre nesse combustível.
A mudança deverá ser feita
em duas etapas, com início em 2006 e 2009. Na primeira,
o teor de enxofre no diesel deverá ser de 0,05%.
Em 2009, o índice cairá para 0,005%. Atualmente
o combustível comercializado nas regiões metropolitanas
do país tem em sua composição 0,2%,
de enxofre.
LUBRIFICAÇÃO - O enxofre
é retirado do diesel por meio de um processo chamado
hidrotratamento, que pode ter, como conseqüência
adicional, a diminuição da capacidade lubrificante
do combustível. Para que a nova composição
não cause um impacto negativo nos motores quanto
à lubrificação de seus componentes,
a Petrobrás e a Bosch do Brasil firmaram uma parceria
para desenvolver meios de garantir a lubricidade do diesel
após a alteração de seu teor do enxofre.
Simultaneamente, a estatal está investindo aproximadamente
U$ 4 bilhões para modernizar o seu parque de refino,
possibilitando a produção do “novo”
diesel. “Com a redução do teor do enxofre,
teremos um combustível mais moderno e mais limpo.
Em outras palavras, menos poluente.
Porém, essa alteração pode reduzir
a lubricidade do diesel, sobretudo no caso do produto a
ser lançado em 2009”, diz Christian Wahnfried,
engenheiro especialista da área de ensaios de durabilidade
da Bosch.
Segundo ele, na Europa, em 1996, quando esse mesmo programa
de redução do enxofre foi realizado, foram
constatadas falhas nos sistemas de injeção.
“Hoje em dia, o problema está resolvido graças
à aditivação do combustível
já nas refinarias, o que recupera sua capacidade
lubrificante”, conclui o engenheiro.
No Brasil, a proposta da Petrobrás também
é adicionar ao diesel aditivos específicos
para garantir antecipadamente as propriedades lubrificantes
do combustível. “Assim, não teremos
problemas de falhas no campo após a introdução
no mercado do novo diesel com baixo enxofre”, define
Christian Wahnfried.
ESTUDOS - Para averiguar os reais efeitos
do novo diesel no sistema de injeção, foram
consumidos dois anos de muito trabalho e dedicação.
“A nossa principal preocupação foi garantir
que o combustível pudesse ser amplamente utilizado
tanto pelos novos veículos como também pela
frota já existente, de forma que não fosse
necessária nenhuma alteração nos componentes
mecânicos e eletrônicos dos veículos.
Uma das conclusões do estudo é que não
será preciso aditivar o diesel para a primeira fase
das mudanças, em 2006, pois sua lubricidade está
garantida. Já para a configuração do
diesel a partir de 2009, as pesquisas realizadas mostraram
que a aditivação será necessária
para que o resultado seja semelhante ao atingido em 2006”,
diz Wahnfried.
A análise feita pela Bosch objetivou verificar o
comportamento do diesel nacional. No entanto, não
se pode descartar a entrada de diesel importado no país,
trazido por distribuidoras, estimuladas pela abertura de
mercado. “Está em discussão incluir
na portaria já definida pela ANP (Agência Nacional
do Petróleo) o mínimo de lubricidade necessária
para que o diesel importado entre no país já
assegurado. Para se ter uma idéia, enquanto o diesel
americano apresenta em geral uma baixa lubricidade, com
o indiano acontece exatamente o oposto. Portanto é
preciso ter os critérios bem definidos para que não
haja problemas posteriores”, finaliza Christian Wahnfried.
O que é e como se avalia a lubricidade.
Lubricidade é a capacidade de um fluído
de diminuir o atrito entre duas superfícies. No caso
dos sistemas de injeção, a lubricidade do
óleo diesel é fundamental para a durabilidade
dos componentes. É claro que outras propriedades
também são importantes. Mas a lubricidade
é indispensável, principalmente para sistemas
de injeção lubrificados pelo próprio
diesel, como a bomba VE (rotativa) ou o Common Rail System
(eletrônico). Existem vários métodos
para a avaliação da lubricidade de um fluido,
como, por exemplo, o SBOCLE e o HFRR.
O primeiro é o preferido dos norte-americanos e
o segundo dos europeus. Ainda há grande controvérsia
quanto à adequação de cada um destes
métodos para a medição da lubricidade,
mas o método oficialmente adotado (e co-desenvolvido)
pela Bosch é o HFRR (High Frequency Reciprocating
Rig). Este método pode ser descrito basicamente como
uma esfera presa a um braço que a esfrega sobre um
disco metálico embebido no combustível que
se deseja testar.
Decorrido um certo período, a esfera é retirada
e a calota do desgaste é medida em um microscópio,
o resultado é dado em µm (micrometro ou milésimo
de milímetro). Quanto maior o desgaste (maior número
HFRR), tanto pior é a lubricidade do combustível.
Outro método, mais demorado e de alto custo, é
o de durabilidade em bancada de ensaio com bombas injetoras
especialmente projetadas para apresentar maior sensibilidade
à lubricidade do combustível.
Estas bombas, de modelo R420-E, são montadas na
bancada e passam a funcionar com o combustível a
ser avaliado durante 1.000 horas ou, aproximadamente, dois
meses. Durante algumas avaliações intermediárias
e após o término do ensaio, as bombas são
retiradas do ensaio, desmontadas e avaliadas quanto ao desgaste
apresentado. Esta avaliação segue determinadas
regras, e é dada uma nota de 1 a 10 para o desgaste
apresentado.
Adequação às normas - O
diesel é o derivado de petróleo mais consumido
no Brasil. Contribui para isto o grande peso do transporte
rodoviário na economia do país. Devido à
tendência mundial de redução de emissão
de poluentes (CO, CO2, NOx, SO2, etc.), foram criadas no
Brasil as normas de emissões Conama I a VI, que estabelecem
níveis de emissões de poluentes e são
bastante semelhantes às normas européias.
A Petrobrás já vem diminuindo o teor de enxofre
no diesel brasileiro desde 1997, para reduzir, principalmente,
as emissões de SO2 nas áreas urbanas. Porém,
as medidas tomadas até agora não são
suficientes para a adequação das emissões
à próxima fase, a Conama V, que entra em vigor
a partir de 2006. A solução será a
utilização de motores equipados com sistemas
eletrônicos de injeção de diesel (mais
precisos e que possibilitam uma maior pressão de
injeção) e, simultaneamente, a redução
ainda maior do teor de enxofre no combustível.
Para reduzir o teor de enxofre para 0,05% e, sobretudo,
0,005%, o diesel precisa passar por um processo rigoroso
de hidrogenização (hidrotratamento), que quebra
as cadeias atômicas e libera o enxofre. É aí
que começam a ocorrer os problemas de lubrificação,
já que o enxofre serve de ponte de ligação
entre cadeias atômicas responsáveis pela lubricidade
do diesel. Retirando o enxofre, tem-se uma redução
da lubricidade, o que afeta os sistemas de injeção,
sobretudo aqueles lubrificados pelo próprio diesel,
como, por exemplo, as bombas rotativas e o Common Rail.
Para eliminar os efeitos da queda de lubricidade, será
feita a aditivação. Como os aditivos são
produtos caros, é importante estabelecer o nível
ideal de aditivação por meio de medições
de HFRR (capacidade lubrificante) e de ensaios em bancada.
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