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2004
| OUTUBRO l DESEJO
Carro voador: do desenho animado
para a vida real
George Jetson fazia parecer fácil. No desenho
animado da década de 60, o personagem saltava da
cama, em seu apartamento sobre uma plataforma aérea,
para uma esteira rolante que seguia até o seu carro
voador. E este o conduzia rapidinho para o trabalho.
De
volta ao mundo real, mesmo décadas depois nós
apenas podemos sonhar com isso. As esperanças de
um carro voador que acabe com o problema dos congestionamentos
parecem fora de questão. No fim da década
de 40, um aparelho que lembrava um automóvel, preso
sob um pequeno avião, caiu no terceiro teste. Mais
acidentes se seguiram. Os céticos dizem que os porcos
conseguirão voar antes dos automóveis.
De fato, em um festival recente chamado Flugtag, em Portland,
Oregon (Estados Unidos), no qual as equipes participantes
usam aparatos "voadores" feitos em casa para atravessar
o rio Willamette, um grupo mergulhou alegremente no rio
com um aparelho chamado "Flying Pig" (Porco Voador).
Ainda assim, subitamente o carro voador não é
mais tanto um sonho ou coisa de desenho animado. Gigantes
como a Honda e a Toyota estão desenvolvendo protótipos
de pequenos aparelhos voadores.
Beneficiados pelos avanços na nanotecnologia, microeletrônica
e robótica, pesquisadores da Nasa, Carnegie Mellon
University e Universidade da Flórida estão
desenvolvendo novas tecnologias de vôo, desenhadas
para tornar a pilotagem de uma aeronave mais fácil
que dirigir um automóvel.
Até mesmo Tim Draper, fundador da lendária
Draper Fisher Jurvetson, a firma de venture- capital (capital
de risco) do Vale do Silício que lançou a
companhia de propaganda on-line Overture.com e outras, recentemente
solicitou a apresentação de propostas a grupos
que estão desenvolvendo carros voadores.
Embora um veículo voador possa estar de 10 a 20
anos distante, ele já está fazendo capitalistas
de risco verem potencial de lucro nele.
Em
tese, quando todo mundo começar a ir voando para
o trabalho, essas geringonças poderão fazer
sombra à indústria automobilística,
que hoje movimenta US$ 850 bilhões. Os aparelhos
- de táxis aéreos a máquinas voadoras
pessoais - poderão dar um novo sopro de vida ao crescimento
das companhias aeroespaciais ou criar toda uma nova geração
de companhias iniciantes. E melhor de tudo: algumas versões
dessa visão podem começar a se tornar realidade
nos próximos anos.
Os táxis aéreos, que poderão transportar
de quatro a oito passageiros em percursos mais curtos entre
aeroportos de menor porte, hoje sub-utilizados, poderão
estar disponíveis nos próximos três
a quatro anos.
Seguindo as pegadas de várias companhias iniciantes,
a Honda desenvolveu um táxi aéreo a jato experimental,
que está agora realizando vôos de teste. Em
fevereiro, ela anunciou que iria fabricar, junto com a General
Electric (GE), o econômico motor a jato que a Honda
desenvolveu para a aeronave. Com US$ 75 bilhões em
vendas anuais, a montadora japonesa poderá eventualmente
entrar no promissor negócio de táxi aéreo.
Com os táxis aéreos zumbindo sobre nossas
cabeças, a chegada dos automóveis voadores
pessoais será apenas uma questão de tempo.
Se Robin Haynes seguir seu caminho, eles poderão
até mesmo se parecer um pouco com os automóveis
dos Jetsons. O aparelho de Haynes, chamado Skyblazer, será
parecido com um automóvel - e poderá de fato
ser usado nas estradas -, além de voar.
Com
o apertar de um botão, as asas se desdobrarão
das laterais do carro. "É o desafio de engenharia
definitivo para mim", afirma Haynes. "E eu adoraria
ter um desses." O projeto já está pronto
e Haynes é um dos empreendedores que estão
negociando com a Draper.
Alguns dos concorrentes de Haynes não têm
os problemas de dinheiro que ele tem. Harry Falk, um contador,
foi atraído para o projeto de um carro voador por
um cliente inventor.
O sonhador original deixou o projeto há muito tempo,
mas Falk e sua equipe perseveraram. No quarto trimestre
de 2003, eles voaram seu aparelho, um helicóptero
portátil, pela primeira vez.
O
protótipo deverá estar concluído em
18 meses, diz Falk. O grupo é custeado pela Defense
Advances Research Projects Agency (DARPA).
Eis como o aparelho, que segundo Falk "é como
uma motocicleta voadora", funciona: Uma pessoa é
presa ao que se parece com uma robusta torre de metal com
um rotor no topo.
Embora um veículo voador esteja de 10 a 20 anos
distante, já faz capitalistas verem potencial de
lucro
A mão esquerda do piloto controla o acelerador,
enquanto que a direita controla um joystick para fazer as
curvas. A máquina, chamada Springtail, pode atingir
velocidades de até 140 quilômetros por hora,
e seu tanque com capacidade para 10 galões de diesel,
permite uma autonomia de vôo de 2 horas e 25 minutos.
Primeiramente, o Springtail será usado por soldados
durante batalhas urbanas. Eventualmente, ele também
chegará ao mundo civil, prevê Falk. Até
lá, a comunidade científica terá proporcionado
algumas tecnologias importantes, hoje não disponíveis
mas necessárias para tornar esse sonho uma realidade.
Para atrair o mercado de massa, os aparelhos voadores terão
de ser super-confiáveis, com uma possibilidade quase
nula de que colidam uns com os outros, e fáceis de
serem controlados.
"Estamos tentando fazer uma aeronave como se fosse
um cavalo", brinca Andrew Hahn, analista da Nasa. "Um
cavalo não gosta de saltar de um barranco. E se você
estiver bêbado ou dormir, ele vai te levar de volta
para o estábulo." Então, Hahn está
desenvolvendo controles intuitivos e fáceis de serem
operados.
Em algum momento, a pilotagem será quase automática.
Graças a um software inteligente especial, helicópteros-robôs
de quatro pés de comprimento desenvolvidos pela Carnegie
Mellon já podem voar em uma rota designada e localizar
um objeto específico, como um pequeno selo eletrônico.
Em algum momento, seus sensores à bordo e programa
analítico serão capazes de discernir obstáculos
como fios e pássaros, e diferenciar entre, digamos,
árvores e pessoas, afirma Takeo Kanade, professor
da Carnegie Mellon em Pittsburgh. Então, os pilotos
humanos precisarão apenas virar o volante e pisar
nos freios, enquanto seus carros "rodam" por si
mesmos.
Em algum ponto, os passageiros poderão até
mesmo ler o jornal ou tomar o café da manhã
enquanto o cérebro de seus carros voadores farão
todo o trabalho.
Pesquisadores da Universidade da Flórida esperam
usar um monte de neurônios vivos - localizados em
um disco selado no chão - para pilotar uma aeronave
de brinquedo no ar. Os neurônios, que são células
nervosas encontradas no cérebro e na medula espinhal,
são conectados a chips de silício que irão
se comunicar com a aeronave sem a necessidade de fios.
Nas
experiências que estão sendo feitas no momento,
eles continuam conectados por um longo cabo. Os sensores
da aeronave coletam informações sobre os arredores
e passam os dados - como as imagens de um prédio
que se aproxima rapidamente - para os neurônios, que
então dizem à aeronave para se desviar.
Como os neurônios sabem o que fazer? Fácil:
eles são treinados por meio de jogos de computador.
As células cerebrais recebem um impulso elétrico
toda vez que a aeronave virtual do jogo bate em um obstáculo,
explica William Ditto, presidente do departamento de engenharia
biomédica da Universidadeda Flórida, em Gainsville.
Mesmo que as aeronaves do futuro venham a colidir, elas
poderão lidar muito melhor com o acidente do que
hoje. O Laboratório de Pesquisas da Força
Aérea dos Estados Unidos está desenvolvendo
maneiras especiais de efetivamente entrelaçar grandes
partes de uma aeronave de fibra de carbono, um material
super- duro, reduzindo o número de emendas no corpo
e tornando-o mais forte.
Entrelaçar - ao invés de montar pequenas
peças - reduz dramaticamente os custos. A Força
Aérea americana também está desenvolvendo
os chamados polímeros que se auto-reparam, que podem
tapar buracos feitos no corpo de uma aeronave, afirma Doug
Bowers, diretor associado do setor de plataformas aéreas
da Força Aérea.
É claro que o uso comercial disso levará
anos. Além disso, lutas regulatórias - envolvendo
tópicos complexos como o controle de tráfego
aéreo - ainda vão ocorrer.
O primeiro round começará com a utilização
em larga escala dos táxis aéreos. "Se
os táxis aéreos realmente funcionarem, o ambiente
regulador vai se modernizar", diz Richard Aboulafia,
um analista da Teal Group de Fairfax, uma consultoria especializada
no setor aeroespacial e de defesa. Isso tornará o
caminho mais fácil para os aparelhos pessoais, que
virão depois.
O automóvel voador ainda vai demorar para ser uma
realidade. Mas as chances são de que em algum momento
os carros vão voar. Já os porcos, não.

Aeronave revolucionária tem cara de automóvel
mas decola e pousa como se fosse um helicóptero
Vermelho como uma Ferrari, o Skycar leva 4 passageiros
a 9.000 m de altitude
É impossível deixar de comparar o Skycar
M400 aos veículos voadores pilotados pela família
Jetson na série de desenhos animados. Vermelho como
uma Ferrari ou um Mustang 1967, a aeronave transporta quatro
passageiros. Decola e pousa verticalmente como um caça
Harrier britânico, paira no ar como um helicóptero
e voa à velocidade máxima atingida é
de 630 km/h. As comparações com o carro-voador
familiar da ficção param por aí. O
Skycar não tem nada de classe média.
Será uma aeronave cara, sofisticada e ao alcance
apenas dos altos executivos e dos aviadores milionários.
Projeto da Moller International, de Davis, Califórnia,
o Skycar ou carro dos céus pode decolar comercialmente
em 2006. O que falta é a aprovação
da FAA. A agência de aviação civil dos
EUA está submetendo o modelo a uma tremenda bateria
de testes de vôo, navegabilidade, desempenho e segurança.
4 turbo-hélices de 120 hp cada respondem pela ascenção
e pouso verticais - O Skycar é impulsionado por oito
turbo-hélices de 120 hp cada. Enquanto um jogo de
quatro propulsores se encarrega do deslocamento vertical
da aeronave durante as operações de decolagem
e pouso, as outras quatro impulsionam à frente a
nave de 5,4 m e 1.100 kg. A velocidade de cruzeiro é
de 560 km/h, com consumo de 6,37 km/l de combustível
e autonomia para voar 1.450 km. Por ser pressurizado, o
Skycar poderá operar num teto de 9.000 m de altitude.
Em caso de pane total durante o vôo, dois pára-quedas
abrem automaticamente, assegurando uma aterrissagem de emergência.
A velocidade de cruzeiro é 560 km/h a a
autonomia, 1.450 km - A Moller já investiu
US$ 100 milhões no projeto. Tão logo receba
o sinal verde do FAA, começa a subir uma fábrica
com capacidade de produção de 500 unidades/ano.
Nestas condições, cada Skycar sairá
por US$ 500 mil - o mesmo que uma Ferrari ou um Rolls-Royce.
Com um aumento expressivo de produção, executivos
estimam que o preço unitário possa cair para
algo entre US$ 60 mil e US$ 80 mil, o mesmo que um carro
de luxo importado como um Audi ou um Mercedes. Quando e
se isso um dia ocorrer, ainda assim será preciso
ter brevê para pilotar um Skycar. Mas não para
taxiá-lo do hangar até o heliponto. Pra isso
basta carteira de motorista.
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