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2005 |
JANEIRO l DEPOIS DO KIT DE PRIMEIROS SOCORROS... l MECÂNICA
EM DIAS
Motorista terá de comprar
novo extintor de incêndio em 2005
A partir desse mês carros de passeio só poderão
sair de fábricas com extintores da classe ABC, capazes
de apagar princípios de incêndio na parte interna
dos veículos. Esta versão - com pó
de monofosfato de amônia - apaga fogo em materiais
sólidos, como plásticos, borrachas, espuma
dos bancos, carpete e estofamento (que correspondem à
categoria A), em combustíveis líquidos (categoria
B) e não provoca curto-circuito (categoria de classificação
C). Quem tem o extintor apenas BC terá de comprar
um novo.
Atualmente, o extintor utilizado, do tipo “BC”,
é capaz de apagar apenas incêndios no sistema
elétrico ou de combustível dos veículos.
A resolução para a mudança foi tomada
pelo Conselho Nacional de Trânsito, o CONTRAN, em
2003, baseada em estudos do Instituto de Pesos e Medidas
do Estado de São Paulo (Ipem).
Em 2001, o Ipem-SP coletou extintores de 59 oficinas de
manutenção de São Paulo e de dois fabricantes
de extintores para carro (Resil e Kidde, antiga Yanes).
O objetivo do trabalho foi o de avaliar a qualidade do extintor
oferecido no comércio e a qualidade das oficinas
de manutenção, que são os responsáveis
pela recarga e inspeções dos extintores.
A conclusão foi que 58 oficinas foram reprovadas
nos ensaios de funcionamento dos produtos. Apenas uma oficina
de manutenção e os dois fabricantes passaram
nos testes aplicados. No Brasil, há 16 fábricas
de extintores, mas apenas três produzem extintores
de um quilograma para carros.
Dicas
Segundo dados do Ministério dos Transportes havia
no país, em 2000, uma frota de 23 milhões
241 mil e 966 carros de passeio. No estado de São
Paulo, este número era de 9 milhões 301 mil
e 665 veículos. Relacionando os números do
Ministério dos Transportes aos dados encontrados
pelo Ipem-SP, em 2001, foi possível concluir que:
O total de extintores com problemas (fora da conformidade),
no Brasil, seria de 11 milhões 486 mil 179. Só
no estado de São Paulo este percentual chegou a 49,42%,
ou seja, 4 milhões 596 mil 882 extintores teriam
problemas.
Como é o novo extintor que poderia substituir o
atual?
Trata-se do modelo ABC, com pó de monofosfato de
amônia (uma substância também usada como
fertilizante). Ele apaga fogo em materiais sólidos,
como plásticos, borrachas, espuma dos bancos, carpete
e estofamento (que correspondem à categoria A), em
combustíveis líquidos (categoria B) e não
provoca curto-circuito (categoria de classificação
C).
É mais caro que o modelo BC (custa perto de 40 reais),
mas a Abiex jura que o preço cairá se esse
equipamento virar obrigatório. Tem validade de cinco
anos, contra três anos do tradicional comprado novo
(35 reais) e um ano do tradicional recarregado (15 reais).
Segundo a Abiex, o segredo da longevidade não vem
do pó, mas sim da vedação mais caprichada
no cilindro. A sugestão do novo extintor feita ao
Contran também prevê o fim da recarga. Se for
aprovada, entrará em vigor no meio de 2004. Junto
com a mudança dos extintores, a proposta prevê
cursos de treinamento.
• Quem ganharia com a mudança do extintor?
“Se é para ter extintor, que pelo menos seja
um eficiente”, diz Saltini. O modelo ABC é
mais seguro e, portanto, o público sai ganhando.
A Abiex pode estar com a melhor das intenções
ao pedir a mudança da lei mas não custa notar
que ela também deve ganhar algum dinheiro com a mudança.
Líderes da associação, as empresas
Kidde e Yanes são as únicas fornecedoras de
extintor para os carros novos. As montadoras dizem que pagam
10 reais por unidade, o que dá um faturamento bruto
próximo de 14 milhões de reais. Com o fim
da reciclagem, as empresas ganhariam também o público
que hoje recarrega o extintor. Segundo o Sindincêndio,
são cerca de 7 milhões de consumidores. O
sindicato também quer o extintor ABC, mas faz restrições
ao fim da reciclagem: “Os cilindros são feitos
para serem recarregados, esse é um direito do público”,
diz Irineu Büller.
• Quem ganharia com o fim do extintor obrigatório?
Para quem acha o extintor uma inutilidade, a abolição
seria o fim de uma despesa e de um aborrecimento na hora
de recarregá-lo no posto. Quem gosta poderia continuar
com o equipamento em dia, indiferente à mudança.
As montadoras ficariam livres de comprar os extintores –
uma bela economia, se lembrarmos que até lâmpadas
de ré têm entrado na contenção
de despesas.
• Em que países o extintor é obrigatório?
Só países chamados de “emergentes”
exigem: Argentina, Bulgária, Costa Rica, El Salvador,
Chile, Guatemala... Na maioria dos lugares, o uso do extintor
é optativo. É o caso da China, Índia,
Paraguai e Uruguai, além dos prósperos Alemanha,
Bélgica, Canadá, Japão, Espanha, França,
Noruega, Itália... Os dados são da AEA.
• A obrigatoriedade em países pobres prova
que estamos certos?
Dá para interpretar de várias formas. Uma
versão otimista: países pobres tendem a ter
carros mal-conservados, que pegam fogo com maior freqüência.
E uma pessimista: países ricos têm governos
menos sensíveis ao lobby de empresas que querem vender
extintor. As duas são mera opinião para conversa
de bar, escolha a sua. Ou vamos a dois fatos que chamam
a atenção: o extintor não é
obrigatório na Suécia, país com uma
das mais rigorosas e eficientes legislações
de segurança no trânsito, nem nos Estados Unidos.
Os 50 estados americanos têm autonomia para criar
essa lei, e nenhum deles quis.
• Por que o extintor não é obrigatório
nos Estados Unidos?
O órgão americano responsável pela
segurança viária (NHTSA) diz que não
encontrou argumentos que justificassem a compra de 200 milhões
de extintores. E olha que eles procuram bastante: todo ano,
o departamento nacional de estatísticas de transporte
faz relatórios de quase 600 páginas.
Às vezes é doloroso manter essa posição
contra o uso do extintor. Dia 29 de março, a advogada
americana Alice Dee Rainville mandou uma carta pedindo pela
obrigatoriedade. A família dela tinha acabado de
morrer em um incêndio de automóvel. O NHTSA
respondeu que lamentava a perda, mas não mudaria
uma linha em suas normas. Segundo eles, o risco de alguém
se queimar tentando apagar o fogo não compensaria
os benefícios. Pelas estatísticas americanas,
um incêndio acontece em 0,2% das colisões em
geral e sobe para 2,9% dos acidentes fatais – ou seja,
o choque foi tão forte que, provavelmente, os passageiros
já teriam falecido antes de o fogo aparecer. “Para
resolver o problema dos incêndios, preferimos tornar
mais rígidas nossas normas de resistência à
colisão e contra o vazamento de combustível”,
escreveu Jacqueline Glassman, chefe de conselho do NHTSA.
• Como nós estamos de equipamento preventivo?
Nos últimos crash test realizados com Gol, Palio,
Corsa e Fiesta (deles, só o VW não mudou desde
então), seguindo a norma americana. Os carros bateram
de frente em uma parede, a 50 km/h, e depois foram virados
de cabeça para baixo. Nenhum deles deixou a gasolina
vazar.
“Hoje, praticamente todos os carros brasileiros saem
de fábrica com um sistema que interrompe a passagem
de combustível em caso de colisão, chamado
válvula inercial, e dispositivos que cortam a corrente
elétrica”, diz Sérgio Ricardo Fabiano,
gerente técnico do Cesvi (Centro de Experimentação
e Segurança Viária), entidade privada que
faz simulações de acidente para estimar o
custo do conserto. “Os modelos novos pegam fogo, mas
a tendência é isso ficar cada vez mais raro.”
Por outro lado, as inovações tecnológicas
levam tempo para mudar o panorama do nosso trânsito.
Nossa frota tem em média nove anos, segundo o sindicato
nacional de produtores de autopeças (Sindipeças).
• Vale a pena apagar o fogo?
O risco de enfrentar as chamas compensa cada vez menos.
“Os carros modernos têm mais peças de
plástico e componentes eletrônicos, as primeiras
peças a estragar em caso de incêndio. Antes
era possível reparar, mas está cada vez mais
difícil”, diz o gerente do Cesvi Brasil. “O
extintor parece o antigo kit de primeiros socorros. Ele
era útil, mas pouca gente podia realmente tirar proveito.”
Tarcisio Dias - Gerente de conteúdo
do Mecânica Online
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