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2005 |
MARÇO l BUSCANDO SOLUÇÕES
Entenda melhor o uso do hidrogênio
O primeiro protótipo de carro elétrico
alimentado por hidrogênio, energia solar e doze baterias
foi desenvolvido pela Delco Freedom e pelos pesquisadores
Eduardo Gurgel do Amaral, Ennio Perez da Silva e Carlos
Roberto Bezerra, do Laboratório de Hidrogênio
do Instituto de Física da Unicamp, em 1995.
O
recém criado Centro Nacional de Referência
em Energia do Hidrogênio (CENEH) da Unicamp, desenvolveu
o carro Vega, um protótipo que utiliza o hidrogênio
como combustível, juntamente com células fotovoltaicas,
aquelas que fazem uso da energia solar. O hidrogênio
é mais limpo que o petróleo, uma vez que não
emite gás carbônico para a atmosfera e sim
moléculas de água. É possível
que em um futuro bem próximo, a cidade de São
Paulo seja a primeira a usufruir do transporte coletivo
com esta energia alternativa. O projeto, conduzido pela
EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos) de São
Paulo e originado pelo Ministério das Minas e Energia,
prevê a compra de 8 ônibus da Alemanha
A equipe do físico Ennio Peres da Silva desenvolveu
o carro, movido a eletricidade gerada por um motor a hidrogênio
que funciona em conjunto com um sistema de baterias. Silva
e sua equipe fizeram parcerias com empresas e indústrias
automobilísticas, que forneceram seus equipamentos
em troca de relatórios sobre desempenho do carro
e a liberação do projeto para campanhas de
marketing. Durante os testes, o Vega atingiu velocidade
máxima de 50 quilômetros por hora, encarou
subidas com 15 graus de inclinação e demonstrou
ter autonomia para rodar 50 quilômetros. Agora, eles
caminham para criar e aperfeiçoar um carro que consuma
mais hidrogênio e pouquíssima energia produzida
por baterias, que possuem muitas limitações.
"O importante é apostar nos veículos
limpos", ressalta o pesquisador.
O Vega II encontra-se em fase final de produção
para iniciar a bateria de testes nas ruas. A expectativa
do pesquisador é que o protótipo alcance 100
km de autonomia e atinja uma velocidade de 70 km por hora.
Sua potência, de 25 kW (ou 30 HP), corresponde a menos
da metade da força dos carros populares. De acordo
com Peres, não há uma preocupação
dos pesquisadores com a potência do veículo,
por enquanto. Cerca de 100 veículos elétricos
com células a combustível foram desenvolvidos
fora do país nos últimos anos, mas apesar
de apresentarem tecnologia similar à do veículo
desenvolvido pela Unicamp, foram adaptados aos combustíveis
fósseis, como a gasolina e o gás natural.
“Nesses casos, o consumo de gasolina cai à
metade, mas ainda assim se produz gás carbônico,
apenas em ritmo menor”, frisa o pesquisador. Segundo
Peres, a queima de combustíveis fósseis, como
a gasolina e o gás natural, libera na atmosfera gases
tóxicos e de efeito estufa, provocando muitos problemas
locais e globais.
Já o etanol, tal como as demais biomassas, oferece
a vantagem de ser renovável em um intervalo relativamente
curto de tempo e não pode ser considerado prejudicial
à atmosfera. “O álcool apresenta uma
série de vantagens: além de eliminar a emissão
de poluentes e romper com a dependência dos combustíveis
fósseis, é economicamente favorável
para o país”, explica o pesquisador. Ele lembra
que o Brasil possui enorme potencial agrícola para
a produção de cana de- açúcar
e acredita que, se a tecnologia vingar, o país poderá
exportar etanol como fonte de energia.
A crise do petróleo na década de 70 fez com
que os cientistas buscassem alternativas à gasolina,
como o álcool. Outra opção eram as
células ou pilhas combustíveis, movidas a
hidrogênio. Esta tecnologia, praticamente abandonada
antes do fim da crise, hoje volta como a mais promissora
arma contra o aquecimento global. Tudo porque equipamentos
e sistemas movidos a células combustíveis
emitem vapor d’água no lugar de gás
carbônico (CO2) - tido como o maior responsável
pela elevação da temperatura.
A preocupação ambiental contribui para a
expansão da tecnologia. A multinacional Shell, por
exemplo, criou a Shell Hydrogen, um braço da empresa
cujo principal objetivo é desenvolver fuel cells
(o nome em inglês da pilha combustível). As
células são capazes de gerar energia ao serem
alimentadas diretamente com hidrogênio puro, liberando
apenas água na atmosfera, ou usando o hidrogênio
produzido a partir de hidrocarbonetos (como gasolina e o
gás natural) ou alcoóis, como etanol e metanol.
O ideal seria fazer com que carros, por exemplo, fossem
movidos apenas a hidrogênio, liberando unicamente
água. Mas a maior parte das pesquisas hoje usa hidrocarbonetos
e alcoóis (principalmente o etanol), para obter o
hidrogênio usado na pilha. A vantagem do etanol é
que a quantidade do CO2 liberado como resultado do processo
é a mesma da já absorvida da atmosfera pela
cana-de-açúcar, da qual se obtém o
álcool, através da fotossíntese. No
caso de hidrocarbonetos e alcoóis, seu uso nas células
representaria uma economia de 5% a 15% na emissão
dos gases, o que já cumpriria os acordos propostos
pelo Protocolo de Kioto (pelo qual os países precisariam
diminuir 5,2% de suas emissões de CO2) - diz o físico
Ennio Peres da Silva.
Mais de 90% de toda a matéria que vemos no universo
é hidrogênio. Ele pode ser extraído
da água a um custo irrisório e gerar energia,
sendo que a única substância emitida é
o vapor. No entanto o hidrogênio não está
disponível na natureza pronto, de forma que para
a sua obtenção na forma pura exige o dispêndio
de energia. O método mais barato para sua extração
é do gás natural, que reage com vapor em temperatura
e pressão altas. É assim que se produz a maior
parte das 40 milhões de toneladas de hidrogênio
utilizadas hoje em processos industriais como refinar petróleo
e produzir amônia para fertilizantes. O processo gera
gases poluentes, mas de forma mais controlada. A extração
utilizando corrente elétrica para separação
do oxigênio e do hidrogênio (eletrólise)
não emite qualquer poluentem, no entanto somente
4% do hidrogênio mundial é produzido desta
forma. O problema está em obter a energia barata
que o sistema despende, a partir de fontes renováveis,
como o vento, a luz solar, as marés e os rios. Segundo
o especialista Peter Hoffmann "se o quilowatt hora
chegar a cerca de 1,5 centavo de dólar, o hidrogênio
gerado por energia elétrica será competitivo
com a gasolina".
"O hidrogênio tem potencial para unificar todos
os tipos de energia", afirma Ennio Perez, secretário
executiuvo do centro Nacional de referência em Energia
do Hidrogênio (Ceneh), da Unicamp, "só
que ainda é preciso muita pesquisa para torná-lo
viável". Outro problema a se contornar é
de armazenamento do hidrogênio. As principais técnicas
são guardar em tanques com enorme pressão
ou resfriar a 235 C negativos para que ele se torne líquido.
outra alternativa é combiná-lo a pequenas
peças de metal, que depois seriam aquecidas e liberariam
o gás. Qualquer que seja a solução,
é preciso gastar energia extra, paravdeixá-lo
parado, o que aumenta o custo e diminui a eficiência:
"Ele pode ser armazenado em pequenas quantidades -
em um carro por exemplo - mas é muito difícil
estocá-lo em quantidades como as que seriam produzidas
por uma usina", afirma Ennio.
Já em 1874, Júlio Verne, no romance "A
Ilha Misteriosa" previra o hidrogênio como a
fonte ideal de energia "uma fonte inesgotável
de luz e calor, de uma intensidade que o carvão não
é capaz". As células combustíveis
foram idealizadas por William Grove em 1839, cerca de 40
anos antes da criação do motor à combustão.
Ele imaginou que se a energia elétrica pode ser usada
para dividir a água em hidrogênio e oxigênio,
também é possível inverter o método
e usar hidrogênio como combustível. As células
são caixas em que os átomos de hidrogênio
atravessam uma membrana que os faz liberar elétrons,
produzindo eletricidade.
Do outro lado da tela, o que restou dos átomos se
recombina com oxigênio e forma moléculas de
água. A elegãncia do processo é que
as células podem ter qualquer tamanho e abstecer
coisas pequenas como um brinquedo ou grandes como um avião.
Em uma economia movida a hidrogênio, todos os motores
serão elétricos, alimentados por essas células:
"A principal vantagem das células a combustível
é que elas tem eficiência muito maiores que
os motores atuais", afirma Newton Pimenta Neves, secretário
adjunto do Ceneh. Um carro movido por célula a combustível
consegue com facilidade, 35 % de aproveitamento e pode chegar
a uma eficiência de 60%. Em células estacionárias,
em que o calor pode ser aproveitado para gerar mais energia,
o aproveitamento pode ser superior a 92%. Os carros elétricos
movidos a células a combustível terão
várias vantagens. Além de emitirem pelo escapamento
apenas água (potável, inclusive), eles são
silenciosos e não tem a vibração dos
carros tradicionais.
Antonio César Ferreira nasceu em Cajobi, no interior
de São Paulo (perto de Catanduva, a 400 km da capital),
há 45 anos. Estudou Química pela Universidade
de São Paulo (USP), fez mestrado e doutorado. Candidatou-se
então ao pós-doutorado no Texas. Pensava em
ficar um ano. Ficou um, dois, três - e lhe foi oferecido
um "green card", o visto para estrangeiros. No
total, passou quase dez anos nos EUA. Trabalhou, entre outros,
em projetos para a Nasa, para o Exército e para o
Departamento de Energia americano. Empregado primeiro num
instituto de pesquisa e depois numa empresa privada (MER
Corporation), desenvolveu projetos também para multinacionais
japonesas.
Em 1996, decidiu abrir uma microempresa no Brasil, a Unitech,
sonhando com a volta. "Não voltaria para dar
aulas em universidade", diz Ferreira, que tinha um
convite de Wall Street para abrir uma empresa em Connecticut.
Mas dominava uma tecnologia que não existia na América
Latina: célula a combustível. Nos primeiros
dois anos, porém, só teve prejuízo.
Em 1998 ingressou no Pipe, o plano de apoio da Fapesp a
empresas de até 100 funcionários, e começou
a recolher os R$ 300 mil com os quais montaria seu laboratório
em Cajobi.
"Não sei, se eu tivesse ido para Connecticut,
se estaria melhor. Provavelmente sim. Mas estou muito satisfeito
com minha empresa." A Unitech tem apenas cinco funcionários,
mas Ferreira em breve terá de contratar mais. Tem
fechado contrato com grandes empresas. Com a crise de energia
no País, seu produto tende a ser mais e mais procurado.
A célula a combustível, de polímero,
é um conversor que utiliza hidrogênio para
gerar água e energia. Usada nas espaçonaves
da Nasa, é cada vez mais comum no cotidiano de cidades
como Tóquio. "Ela tem duas vantagens: não
precisa ser recarregada e não é poluente",
conta Ferreira. O custo de produzir um quilowatt, acrescenta,
é competitivo com o das geradoras hidrelétricas
e termoelétricas, mas a célula a combustível
dispensa linhas de transmissão.
Pesquisadores da Unicamp trabalham no desenvolvimento do
primeiro veículo elétrico nacional com células
a combustível, uma tecnologia que utiliza o hidrogênio
como fonte de energia. O projeto, orçado em R$ 400
mil, foi encomendado pelo Ministério de Minas e Energia
(MME), e a intenção é de que seja concluído
até o final de 2003. Batizado de Vega II, o protótipo
do carro deve ser exposto em agosto de 2003 no Salão
de Inovação Tecnológica, em São
Paulo. O protótipo da Unicamp, abastecido por hidrogênio
gasoso, será do tipo híbrido, baseado no uso
simultâneo de baterias e células a combustível.
E é nesse aspecto, de acordo com Ennio, que o projeto
nacional apresenta vantagens em relação a
outros veículos desenvolvidos em alguns países.
A célula a combustível usada para desenvolver
o protótipo da Unicamp tem o tamanho aproximado dos
motores utilizados hoje nos veículos de passeio.
Importada dos Estados Unidos, tem capacidade para fazer
funcionar, em conjunto com as baterias, um carro de 30 KW.
Essa potência equivale a um motor de 35 HP ou cerca
de 500 cilindradas.
Antonio Cesar Ferreira depois de completar o doutorado
na Universidade Federal de São Carlos, cidade a 300
km de São Paulo, o químico foi para o centro
de pesquisa da Universidade do Texas Agricultura e Mecânica,
nos Estados Unidos. Ali, em 1991, começou o pós-doutorado
no mesmo tema iniciado no Brasil: " célula a
combustível " . A carreira foi de vento em popa.
Depois do Texas, Ferreira atuou como pesquisador na empresa
MER, no Arizona. Lá, esteve envolvido em projetos
especiais para órgãos governamentais como
a Agência Espacial Americana (NASA), o exército
americano, o departamento de energia e as empresas japonesas,
Asahi e Mazda.
Como pesquisador, Ferreira recebia 7,5 mil dólares,
valor inimaginável para a realidade brasileira. Mesmo
assim, ele se inscreveu no Pipe. " Queria trazer tecnologia
ao País. Também visualizava o grande interesse
das empresas brasileiras em célula a combustível
" , diz. De 1998 a 2000, o financiamento de R$ 375
mil da Fapesp viabilizou o primeiro protótipo de
" célula a combustível " produzida
por Ferreira. " Conheço todos os componentes
do projeto, então dá para fazer tudo, sem
precisar importar peças " . Depois foi desenvolvendo
projetos maiores em parceria com grandes empresas. Há
três anos, o pesquisador é proprietário
da microempresa Unitech, fundada em Cajubi, a 450 quilômetros
da cidade de São Paulo. Também conta com a
ajuda de mais sete funcionários.
Mas, por que tanto interesse em " célula a
combustível " ? " Célula a combustível
" é um equipamento silencioso, alimentado por
hidrogênio, que produz energia elétrica sem
combustão, ou seja, sem poluir o meio ambiente. O
hidrogênio pode ser retirado da água, gás
natural, álcool, ou até gasolina para alimentar
o aparelho. O domínio da tecnologia da " célula
a combustível " é questão estratégica
no mundo todo para empresas automobilísticas e de
energia e governos. A previsão é que no futuro
haja pequenos equipamentos distribuídos pelas casas
gerando energia elétrica. As conhecidas fontes de
energia - como usinas hidrelétricas, termelétricas
e nucleares - perderiam a grande importância que têm
hoje. O pesquisador diz que nos Estados Unidos alguns ônibus
e carros, em fase de testes, rodam desde 1998 com equipamentos
conhecidos por " célula a combustível
" . A previsão é que a nova tecnologia
nos automóveis comece a ser comercializada daqui
a dois anos por algumas empresas do setor.
Fonte: http://www.terra.com.br/istoe/politica/143427.htm
http://www.comciencia.br/reportagens/energiaeletrica/energia04.htm
http://www.sosaguas.org.br/notas/hidrogenio.htm
acesso em dezembro de 2001
http://www.unb.br/acs/acsweb/clipping/sucesso.htm
http://www.radiobras.gov.br/ct/materia.phtml?materia=102102
acesso em março de 2003
http://www.valoronline.com.br/valoreconomico/materia.asp?id=1821623
acesso em setembro de 2003
Cronologia do Desenvolvimento Científico e Tecnológico
Brasileiro, 1950-200, MDIC, Brasília, 2002, páginas
275
revista Superinteressante, março de 2003, página
53 a 55
revista Ciência Hoje, junho de 2003 pagina 47
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