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2005
| MARÇO l A INVENÇÃO
É O INGREDIENTE BÁSICO DA INOVAÇÃO
Tecnologia e inovação:
questões complexas
Davys Sleman de Negreiros
Todos temos certas intuições sobre a inovação
tecnológica; entretanto, nos confundimos logo que
procuramos especificar a maneira pela qual poderíamos
organizar ou executar o processo de inovação,
a criação de novos dispositivos ou novas indústrias.
Podemos aplicar a estória dos homens cegos e do elefante
à inovação técnica. O que cada
homem experimentou e onde ele tocou o animal determinam
suas idéias sobre o que seja o elefante. E cada homem
tem idéias muito diferentes.
Em primeiro lugar, não existe inovação
pura e simples, porque muitas são as maneiras pelas
quais se pode inovar. Existem muitas indústrias e
problemas, e cada um deles é bastante diferente.
Temos a tendência de simplificar em demasia e pensar
que apenas a aplicação da ciência nos
leva, de algum modo, à solução de todos
os problemas. Mas, naturalmente, a complicação
é muito maior.
Aliás, é errado equacionar-se tecnologia
e ciência. Esta é a busca de conhecimentos
mais ou menos abstratos, enquanto que a primeira é
a aplicação do conhecimento organizado no
auxílio à solução de problemas
em nossa sociedade. Tendemos a nos esquecer que, mesmo atualmente,
grande parte da tecnologia, das engenharias mecânica
e civil, por exemplo, podem independer da ciência.
Existem muitas atividades criadoras e inovadoras importantes
que, quando utilizam a ciência, fazem-no incidentalmente.
Durante muito tempo, isto foi válido para maior
parte da tecnologia. Depois, logo que se começou
a compreender alguma coisa sobre a eletricidade e a química,
utilizou-se esse conhecimento na fabricação
de aparelhos para fins específicos, por exemplo,
o motor elétrico, telégrafo, telefone, plásticos.
A maioria dessas invenções não foi
feita por cientistas (que estavam mais interessados na compreensão
do fenômeno natural), mas por pessoas que, de certo
modo, haviam aprendido alguma coisa em determinado setor
científico, viram as oportunidades de agir a respeito
de um problema existente e quiseram explorar uma idéia
nova para inventar qualquer coisa baseada no novo conhecimento.
Esquecemos que a invenção continua sendo
o ingrediente básico da inovação. Ainda
precisamos de pessoas que tenham pendor, interesse, aspiração
e capacidade criadora para serem inventores. Os primeiros
inventores utilizavam os fatos do mundo quotidiano no qual
viviam, confiando em aparelhos e processos mecânicos
que podiam observar. O tecnólogo moderno, que cria
um transistor, um novo plástico ou um novo antibiótico,
não é menos inventor, mas tem de viver num
mundo especial e ter conhecimentos especiais nos quais possa
fundamentar suas criações. Mas a posse de
base científica não transforma uma pessoa
automaticamente num inventor.
Além disso, o problema de como produzimos, ou como
treinamos dá origem, de certa maneira, a pessoas
dotadas de capacidade criadora num assunto sobre o qual
muito se escreveu, mas que ainda não é realmente
compreendido. Acredito que isto se relacione com outro problema
que não compreendemos: como os seres humanos pensam?
Se perguntarem a um professor o que está tentando
fazer, ele dirá que está procurando ensinar
as pessoas a pensar. Então, se perguntarmos: “Como
é que o senhor ensina as pessoas a pensar?”,
descobrir-se-á que ele realmente não sabe.
Se seus esforços são bem sucedidos, é
devido ao seu próprio exemplo.
No âmago do problema, não só da inovação
mas também da pesquisa científica, está
este dilema: alguns estudantes muito bons na solução
de problemas, e que alcançam notas elevadas, mostram
não ser nada originais quando postos a trabalhar
num projeto de pesquisa; por outro lado, muitos estudantes
que não são bons acadêmicos, e que precisam
ser arrastados através de cursos e exames, tem, realmente,
a centelha criadora e, amiúde, transforma-se em excelentes
pesquisadores.
Desta forma, acredito que, se desejamos inovação,
necessitamos antes de tudo, de uma pessoa com o impulso,
a imaginação e o desejo ardente de criar,
de inventar. Naturalmente, a inovação exige
também outras coisas. Deve existir a oportunidade,
a necessidade, bem como as verbas para esse tipo de atividade
criadora no mundo inteiro; este último fator está
se tornando um obstáculo cada vez maior a inovação,
a medida que aumentam os custos da ciência e da tecnologia.
Na maior parte do mundo civilizado, tem-se uma crença
que julgo ser justificada, embora seja muito difícil
prová-la estatisticamente: a de que o índice
de crescimento da nossa economia está de certo modo,
ligado à quantidade de pesquisas e desenvolvimento
que realizamos, especialmente a primeira. Ninguém
duvidará do fato de que, se não fizéssemos
grande número de pesquisas básicas, criando,
desta forma, o conhecimento científico no qual se
fundamenta a nossa tecnologia, não teríamos
nossa florescente sociedade industrial. Não obstante,
não estabelecemos uma relação quantitativa
entre os índices de gastos em pesquisas e os índices
de crescimento econômico.
Também no tocante à pesquisa e ao desenvolvimento
aplicados, deveríamos estar convencidos de que as
coisas que procuramos são necessárias, antes
de com elas despendemos grandes somas. Essa precaução
é necessária, em parte, porque a pesquisa
e o desenvolvimento aplicados são muito mais dispendiosos
do que a pesquisa básica e, em parte, porque novo
conhecimento, a compreensão fundamental, é
um bem indestrutível que poderá ser usado
a qualquer momento no futuro. Quer ele seja adquirido hoje,
ou daqui a cinco ou dez anos, não importa, mas o
fator tempo do valor dos desenvolvimentos tecnológicos
é forte.
Haverá alguma ligação clara entre
o índice de gastos em pesquisas e desenvolvimento
e o índice de crescimento econômico? Poder-se-á
dar valor monetário aos resultados das pesquisas?
Se pensarmos um pouco sobre esta pergunta, veremos que ela
é, em partes, uma tolice, porque não podemos
estipular um preço para a importância de algo
como a penicilina. Porém, existem outras coisas passíveis
de receber um preço. É possível, por
exemplo, estabelecer o valor de certos desenvolvimentos
tecnológicos específicos, tais como a utilização
da energia atômica para fins pacíficos. Todavia,
mesmo aqui, encontramos armadilhas. Como se debita o dinheiro
gasto hoje para o ano 2010? A população do
Brasil no ano 2010 será de trezentos mil ou meio
milhão de pessoas? É evidente que estas perguntas
têm importante conseqüência para os resultados
desse tipo de análise econômica.
Existe, nos Estados Unidos, uma crença geral, da
qual partilho, de que à medida que aumentamos a produtividade
industrial e temos maior disponibilidade de potencial humano,
uma das coisas que precisamos fazer é criar novos
produtos e indústrias. Além disso, queremos
que as velhas indústrias se tornem mais eficientes
para ajudar a elevar o padrão de vida. Quando procuramos
compreender por que certas indústrias são
mais dinâmicas e outras não, descobrimos que
muitas destas últimas não fizeram uso suficiente
da tecnologia para melhorar sua produtividade ou seus produtos,
ou para criar novos produtos.
É difícil compreender isto. Mas as indústrias
que não têm sido muito agressivas na aplicação
da tecnologia e da ciência, parecem ter algumas coisas
em comum. Uma, é que elas tendem a ser indústrias
compostas de pequenas unidades. A indústria de construções,
por exemplo, compõem-se de grande número de
pequenos construtores. Como resultado, não existe
uma grande companhia que, se fizer consideráveis
investimentos em pesquisas e desenvolvimento, eles lhe trarão
um lucro substancial. Mesmo a maioria dos fabricantes de
materiais de construção não é
suficientemente grande para financiar esforços eficientes
de pesquisas e desenvolvimento. Essas indústrias
não têm elos tradicionais com a pesquisa e
não compreender seu potencial.
Nestes últimos anos, a existência ou não
de uma função para governo federal no fomento
da inovação nos tem intrigado. Examinando
o que os outros países fizeram nesse setor, e as
tentativas para estimular a inovação industrial
na Inglaterra (atualmente) e na União Soviética
(quando da sua existência e poder), os únicos
países onde os governos fizeram importantes esforços.
Na minha opinião, ambos falharam.
Na Inglaterra, após a Segunda Guerra Mundial, o
governo fundou cerca de cinqüenta Institutos Industriais,
cuja finalidade principal era ajudar a criar novos produtos
e introduzir tecnologia e processos modernos na indústria
britânica. Fez-se isto porque os ingleses reconheciam
que sua indústria não estava em pé
de igualdade com a indústria norte-americana mais
moderna. Com muita imaginação e energia, puseram-se
a fazer algo a respeito, mas os resultados dessas atividades
em 1961 e 1962 mostraram que a maioria fracassou. Eles haviam
realizado inúmeras coisas muito interessantes mas,
em grande parte, sem importância. Todo esse conjunto
de Institutos, que havia gasto muito dinheiro, não
desenvolveu novos produtos realmente importantes ou novas
idéias que tivessem sido aplicadas à indústria.
Seria desleal dizer que eles não deram contribuição
alguma, mas o fato é que não revitalizaram
a indústria britânica, sua principal esperança.
Uma razão para esse resultado insatisfatório
me parece clara. Ter uma nova idéia e mostrar sua
viabilidade é a parte mais fácil da introdução
de um novo produto. Projetar um produto satisfatório,
produzí-lo e criar um mercado para ele, são
problemas bem mais difíceis. Persuadir pessoas a
arriscar grandes somas em novas idéias pode ser muito
difícil, sobretudo numa situação na
qual o jogador não adquire um interesse de proprietário
no novo produto. Essa foi uma das mais sérias fraquezas
dos Institutos Industriais. Se eles aperfeiçoassem
um produto atraente, obviamente vendável, ele seria
igualmente acessível a todos. Como resultado, ninguém
estava preparado para ser o primeiro a arriscar grandes
quantias para desenvolver o mercado – ou assumir as
possíveis perdas se ele não pudesse ser desenvolvido
– sabendo que, tão logo isto ocorresse, outras
companhias poderiam intervir.
A então União Soviética também
fez vultosos investimentos nos laboratórios de Ciências
Aplicadas, na pesquisa industrial e nos laboratórios
de desenvolvimento. Entretanto, nessa época, a principal
preocupação da liderança soviética
era saber como aumentar a eficiência da sua indústria
e como desenvolver novos e melhores produtos. Seu orgulho
não ia ao ponto de impedir que copiassem o que necessitam.
Se quisessem um limpa-neves, compravam os existentes, escolhiam
o melhor e copiavam-no. Mas, no geral, a indústria
soviética tinha sido incapaz de copiar, com vantagem,
os produtos ocidentais, resultado, em parte, da insuficiência
fundamental da sua base industrial, a despeito dos grandes
progressos da última década. Existia também
uma aparente falha de interação adequada entre
os cientistas e tecnólogos soviéticos e a
indústria soviética.
Não é fácil compreender esses fracassos
e ainda não estou satisfeito com a minha análise,
mas tenho algumas outras considerações a fazer
sobre o caso britânico. Além do problema dos
perigos, já citados, o sistema inglês não
está qualificado para atrair o tipo de pessoas impulsionadas
para fazer ou criar alguma coisa nova. Não é
provável que o inovador, o homem que acredita ter
a grande idéia que lhe dará um milhão
de dólares, vá trabalhar num laboratório
com cinqüenta funcionários, onde a finalidade
é “inventar” algo no campo abstrato.
Este é um sério problema. Não se pode
mandar um homem ter novas idéias. Não podemos
dizer apenas: “Queremos três idéias novas
este ano, nos seguintes setores”, e esperar que elas
realmente apareçam. A inovação é
um processo muito mais complexo. Parece-me que um ingrediente
importante, ausente no caso inglês, é a pessoa
com a inspiração para fazer algo novo. Já
disse anteriormente que as pessoas inspiradas não
são, necessariamente, os cientistas ou os engenheiros
mais bem treinados. Os inovadores técnicos são
homens que não só têm algum conhecimento
científico, mas também a inspiração
para colocá-lo a funcionar em toda idéia nova
que apareça. Isto não quer dizer que haja,
atualmente, na maioria dos nossos laboratórios, homens
que são bons cientistas ou engenheiros e, ao mesmo
tempo, bastante criadores. Mas a maioria dos diretores de
laboratórios admitem que, para terem algumas pessoas
realmente criadoras, precisam de uma grande equipe.
Para se educarem pessoas que tenham a competência
científica ou técnica e, ao mesmo tempo, sejam
capazes de alguma inspiração, poderíamos
fazer experiências com os Institutos Tecnológicos,
as grandes Universidades, Instituições Governamentais
e com a indústria, que também deveriam dar
verbas suficientes para financiar o desenvolvimento das
invenções. Também poderíamos
oferecer incentivos financeiros para as indústrias
cuja principal dificuldade é a fragmentação
em grande número de pequenas firmas, de modo a reuní-las
na realização de pesquisas cooperativas e
atividades do desenvolvimento. Espero que com esse bocado
de trabalho exploratório da nossa parte, se permita
que as várias pessoas que estão fazendo pressão
para a realização dessas experiências,
possam iniciar algumas delas. Então teremos a oportunidade
de saber se é possível estimular a inovação
e o desenvolvimento tecnológico numa indústria
pachorrenta.
Obras Consultadas:
CARVALHO, André & QUINTELLA, Heitor. “Informática”,
MG, Editora Lê, 1995.
CHINOY, Ely. Sociedade (uma introdução à
Sociologia), 19ª edição, SP, Cultrix,
1993.
COSTA, Marco Aurélio Rodrigues da. “Crimes
de Informática (Internet)”, UFRGS, 1998.
FORESTER, Tom & MORRISON, Perry. “A insegurança
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Revista de Administração de Empresas ,1990.
FORESTER, Tom (editor). “Informática e Sociedade
– Evolução e Revolução”
, Lisboa, Edições Salamandra, 1989, vol. I
e II.
MASUDA, Yonejii. “A sociedade da Informação
como sociedade Pós-Industrial”, RJ, Editora
Rio-Embratel, 1982.
SCHAFF, Adam. “Sociedade Informática: as conseqüências
sociais da segunda revolução industrial”,
3ª edição, SP, EdUNESP, 1992.
TORRE, M.B.L. Della. “O Homem e a Sociedade (uma introdução
à Sociologia)”, 15ª edição,
SP, Cia. Editora Nacional, 1989.
WARNER, Aaron W. & MORSE, Dean (orgs.) “O impacto
social da reforma tecnológica”, SP, Livraria
Freitas Bastos S.A., 1967.
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