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2005 |
ABRIL l DESTRAVANDO AS FASES E AVANÇANDO NO JOGO
Programa brasileiro do biodiesel
recebe mais apoios
O
biodiesel, combustível renovável, produzido
a partir de plantas oleaginosas, começa a chegar
aos postos este ano, no Estado do Pará. Depois, será
paulatinamente distribuído no País. A meta
atual é que seja adicionado ao diesel na proporção
de 2%. Em 2020, deverão ser 20%.
A Fiesp promoveu seminário sobre este
programa do governo, expressando o apoio da indústria
paulista à iniciativa. O desafio, agora, é
remover os entraves à plena implantação
do projeto.
O seminário "Programa do Biodiesel Entraves
Existentes para sua execução" foi organizado
pelo Departamento de Infra-estrutura (Deinfra) da Fiesp,
cujo diretor titular, Saturnino Sérgio da Silva,
afirmou que o novo combustível deverá ser
uma bandeira da entidade.
"Estudos apontam que o Brasil poderá vir a
ser a sexta maior economia mundial a partir de 2015. Assim,
precisamos estar mais nivelados ao primeiro mundo. Este
é um grande desafio.
A Fiesp contribuirá para a implantação
com sucesso do Programa Nacional de Biodiesel, recentemente
lançado pelo Governo Federal", frisou o dirigente
na abertura do evento, realizado dia 4 último.
O biodiesel, combustível renovável, produzido
a partir de oleaginosas como mamona, soja, girassol e dendê,
já está autorizado no Brasil para mistura
de 2% ao diesel do petróleo e deverá chegar
aos postos ainda este ano, na região de Belém.
Atualmente, 20% do diesel consumido no país são
importados. Utilizado principalmente no transporte de passageiros
e de carga, o diesel tem consumo de 38,2 bilhões
de litros/ano (57,7% do consumo nacional de combustíveis
veiculares).
De acordo com Luiz Gonzaga Bertelli, diretor da Divisão
de Energia do Deinfra, o biodiesel reforça a promoção
do uso de fontes renováveis e possibilita a diversificação
da matriz energética brasileira. "Ao lançar
as bases legais e normativas para a o Biodiesel, o Brasil,
mais uma vez, inova no uso de combustíveis renováveis,
assim como fez na década de 70 com o álcool
extraído da cana-de-açúcar".
Segundo o especialista, as fontes renováveis respondem
por 43,8% da matriz energética brasileira, enquanto
a média mundial é de 13,6% e nos países
desenvolvidos, de apenas 6%. Confiante, Bertelli afirma
que o Brasil dispõe de tecnologia para produzir um
biodiesel de qualidade internacional e o primeiro no mundo
fabricado a partir de rota tecnológica utilizando
o etanol. "Nos demais países, o processo de
produção utiliza o metanol, derivado do petróleo.
Além disso, o uso do biodiesel implicará ganhos
para a economia nacional a partir da redução
das importações de diesel de petróleo,
para a preservação do meio em ambiente e a
geração de emprego e renda no campo, na indústria
e nos serviços".
No caminho certo - Nos últimos
12 meses, por meio do Programa Nacional de Produção
e Uso do Biodiesel (PNPB), o Governo Federal organizou a
cadeia produtiva, definiu as linhas de financiamento, estruturou
a base tecnológica e editou o marco regulatório
do novo combustível.
Para Donato Aranda, professor doutor de Engenharia Química
da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o Brasil começa
a traçar um caminho de amadurecimento em relação
ao biodiesel. "O programa é extremamente promissor
em diversos aspectos. Estimativas mostram que não
precisamos derrubar uma árvore para o plantio de
sementes oleaginosas, pois temos 40 milhões de hectares
disponíveis". No entanto, ele alerta para alguns
cuidados quanto à matéria-prima. "O Brasil
dispõe de palma, mamona, algodão, babaçu,
girassol, nabo forrageiro, canola, amendoim, soja e até
mesmo sebo animal. Todos são passíveis de
transformação em biodiesel, mas precisamos
estar atentos para as questões referentes à
oxidação, teor de fósforo, acidez,
viscosidade e propriedades que reagem em contato com baixas
temperaturas", explica.
Preocupações - Investir
no Biodiesel tem sido uma das prioridade do Governo Federal,
que já destinou para o desenvolvimento de pesquisas
e processo de produção, R$ 16 milhões
dos fundos setoriais, geridos pelo Ministério de
Ciência e Tecnologia (MCT). Afinal, dados do Ministério
de Minas e Energia mostram que o petróleo é
responsável por 43,1% da matriz energética
brasileira. Em segundo, estão as hidroelétricas,
com 14%, seguidas da cana-de-açúcar, com 12,6%.
Em quarto lugar, com 11,9%, aparece o carvão vegetal,
depois o gás natural, com 7,5%, carvão mineral,
com 6,6%, outras biomassas, com 2,5%, e, em último,
o urânio, com 1,8%.
Levantamento da Associação Nacional dos Fabricantes
de Veículos Automotores (Anfavea) mostra que o diesel
é responsável por 50,7% do consumo de combustíveis
nos veículos. Em segundo lugar, a gasolina, com 28,5%,
seguida do álcool anidro, com 11%, e álcool
hidratado, 7,9%. O gás natural ficou em último,
com 2,2%.
Diante deste cenário, o presidente da Comissão
de Energia e Meio ambiente da Anfavea, engenheiro Henry
Joseph Jr, faz um alerta: "Precisamos ter muito cuidado
na alteração do combustível voltado
à frota rodoviária, já que 90% usa
o diesel". Ele também chama atenção
para o Programa Nacional de Produção e Uso
do Biodiesel (PNPB), bastante focado na questão social.
"O governo pretende beneficiar a agricultura familiar
como fonte produtora de matéria-prima para o biodiesel,
questão que pode impedir a produção
em larga escala".
O Brasil tem a nona frota mundial, com 21,85 milhões
de veículos, não incluindo motocicletas, tratores
e máquinas agrícolas. O uso do biodiesel,
proveniente da mamona já está sendo testado
pela Anfavea em Ribeirão Preto, na Distribuidora
de Bebidas Ipiranga, em 140 caminhões. Mas, de acordo
com o engenheiro, há ainda muitas questões
em aberto. "Não somos contra o biodiesel, mas
a Anfavea não abre mão de algumas exigências:
que ele seja compatível com as tecnologias veiculares
previstas para atender os novos limites de emissão
de gases; não deve impor aumento nas manutenções
periódicas e preventivas; que possa ser usado pela
frota atual e, principalmente, que as características
da mistura do biodiesel atendam às especificações
da ANP (agência Nacional do Petróleo), mas
que também tenha um olhar na futura adoção
dos padrões internacionais".
Joseph Jr. Ressalta como ponto importantíssimo e
difícil a responsabilidade pela qualidade do combustível,
que, segundo a Anfavea, deve ser dos distribuidores do combustível,
responsáveis também pelo desenvolvimento e
qualidade de seu fornecedores.
Produção integrada - O
engenheiro José Luiz Olivério, vice-presidente
de Operações da Dedini S/A, também
apresentou alguns entraves. Porém, otimista, acredita
que o programa brasileiro será um sucesso, principalmente
se houver uma integração das cadeias produtivas
de grãos e da cana-de-açúcar. De acordo
com ele, produção integrada permite uma significativa
redução nos custos. "Precisamos aproveitar
o potencial destas instalações, processos,
sistemas, recursos humanos e transformar as usinas de álcool
do Brasil em usinas produtoras de Energia, combustíveis
e alimentos".
Preocupado com os altos impostos dos combustíveis,
o engenheiro lembra que no ano passado o Brasil consumiu
cerca de 41 bilhões de litros de diesel convencional.
Deste total, parte foi importada, representando um dispêndio
em divisas de US$ 830 milhões. Dentro do Programa
Nacional, o biodiesel será misturado ao diesel inicialmente
na proporção de 2%, com o objetivo de, até
2020, atingir 20% da mistura. "Ou seja, esta meta significa
um programa de proporções semelhantes ao realizado
com o etanol, no qual o Brasil é líder mundial,
como deverá ser na área do biodiesel",
conclui. |