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2005 |
AGOSTO l RODOVIAS DE RISCOS
Viagens trágicas: uma
análise
sobre acidentes de trânsito com
ônibus/microônibus nas rodovias federais no
ano de 2004
José Nivaldino Rodrigues
O
presente estudo tem por objetivo analisar alguns aspectos
importantes com relação aos acidentes de trânsito
nas rodovias federais no ano de 2004 envolvendo ônibus/microônibus.
Qualquer acidente de trânsito, por menos grave que
seja, representa uma experiência traumática
para quem nele se envolve. Uma visão mais simplificada
de acidente de trânsito o define como sendo um "evento
não intencional, envolvendo pelos menos um veículo,
motorizado ou não, que circula por uma via para trânsito
de veículos, que resulte em vítimas ou danos".
Certos acidentes de trânsito, dada a sua gravidade,
representam verdadeiras tragédias, com conseqüências
imensuráveis, em razão da quantidade de vítimas,
feridas e mortas, que sofrem traumas e perdem vidas em um
único evento. Nos últimos meses, temos observado
como os acidentes de trânsito envolvendo ônibus/microônibus
- considera-se ônibus "veículo automotor
de transporte de coletivo com capacidade para mais de 20
passageiros, ainda que, em virtude de adaptações
com vista à maior comodidade destes, transporte número
menor" e microônibus é o "veículo
automotor de transporte coletivo com capacidade para até
20 passageiros - têm preocupado as autoridades e chamado
a atenção da imprensa, a qual tem noticiado
com freqüência acidentes de trânsito envolvendo
esse tipo de veículo.
Exemplo disso ocorreu no dia 22 de fevereiro de 2004 quando
o Brasil assistiu estarrecido a um acidente com ônibus
que transportava 42 pessoas que saiu da pista e submergiu
em açude com mais de 10 metros de profundidade. Todos
os ocupantes do ônibus perderam suas vidas, ali, naquele
acidente. Conforme levantamento da Polícia Rodoviária
Federal - PRF, o referido acidente ocorreu na BR 116, no
Estado do Ceará, às 04:30h da manhã.
A pista era pavimentada, porém, apresentava péssimas
condições de conservação.
No levantamento da PRF verifica-se que no local não
havia defensa e nenhum outro tipo de proteção
entre as águas turvas do açude e a pista de
rolamento. De acordo com informação da PRF,
o condutor do ônibus estava na direção
a mais de 5 horas em um horário que o cansaço
e a sonolência se manifestam fortemente e, em aproximadamente
15 minutos seria substituído por outro motorista
em ponto de apoio próximo. A viagem teria atrasado
devido à chuva ocorrida no trajeto do ônibus,
muito embora no momento do acidente não estivesse
chovendo.
Desta ocorrência, observamos pelo menos três
fatores agravantes que podem ter contribuído para
que o acidente acontecesse: as más condições
da rodovia, a falta de dispositivo de proteção
entre a pista e o açude e o tempo do condutor ao
volante em horário crítico de sonolência
e cansaço.
Resguardadas as proporções, esse é
um caso típico de acidente de trânsito envolvendo
ônibus/microônibus nas rodovias federais brasileiras.
Somente no ano de 2004, a Polícia Rodoviária
Federal registrou 7.639 acidentes com ônibus/micrônibus
envolvendo 7.718 do tipo resultando, ainda, em 7.254 feridos
e 754 mortos. Considerando que o País possui uma
frota de 500.000 ônibus/microônibus registrados,
aproximadamente 0,5% deles se envolveram em acidentes no
ano de 2004, somente nas rodovias federais.
As rodovias federais no Estado do Rio de Janeiro foram
as que mais ocorreram acidentes dessa natureza. Foram 1.211
acidentes, 926 feridos e 75 mortos. Em segundo lugar, nas
rodovias mineiras ocorreram 1.070 acidentes, com 1.567 feridos
e 121 mortos. Nesse sentido, podemos observar que nas rodovias
de Minas Gerais os acidentes apresentam o maior grau de
severidade dos acidentes envolvendo ônibus/microônibus.
No Estado do Ceará, o número de mortes foi
elevado em razão do acidente descrito no segundo
parágrafo ter ocorrido em rodovia daquele Estado.
Observamos, também, que nos Estados da Região
Norte o número de mortes nesse tipo de acidente quase
inexiste, comparativamente às outras regiões.
As rodovias federais com maior número de acidentes
envolvendo ônibus/microônibus são as
BR 101, BR 116 e BR 040 na qual ocorreram 1.629, 1.603 e
466 acidentes, respectivamente.
Analisando os acidentes com ônibus/microônibus
segundo a gravidade, de acordo com dados da Polícia
Rodoviária Federal, foram 5.453 acidentes sem vítimas,
1.765 acidentes com feridos e 421 acidentes com mortos.
O número de pessoas envolvidas nos acidentes foi
de 153.125. Deste total, 145.201 corresponde ao número
de envolvidos ilesos. O total de veículos envolvidos
nos acidentes com ônibus/microônibus foi de
15.346 equivalente a uma média de 10 pessoas por
veículo.
Com relação aos tipos de acidentes, verifica-se
a ocorrência do tipo colisão traseira como
a que mais aconteceu (2.634 acidentes). O segundo tipo de
acidente mais freqüente foi a colisão lateral
(2.184 acidentes). Vale ressaltar, o elevado número
de atropelamento de pedestres com 220 ocorrências,
resultando em 80 mortes. Outro número expressivo
refere-se ao atropelamento de animais com 395 acidentes.
Quanto aos fatores contribuintes, destaca-se a falta de
atenção do condutor (2.609 observações),
seguido da negligência quanto a não guardar
distância de segurança (1.002 observações).
Dois fatores contribuintes que resultam em acidentes de
maior gravidade, quais sejam: velocidade incompatível
e ultrapassagem indevida registraram números semelhantes,
387 e 326 ocorrências, respectivamente.
Em se tratando das condições do tempo, a
maioria dos acidentes ocorreu com o tempo bom (5.209 ocorrências).
Quanto ao traçado da via, 4.030 acidentes ocorreram
em pistas simples e 3.062, ocorreram em pistas duplas. Assim
como, a maioria dos acidentes ocorreu em pleno dia (4.013
acidentes).
Quanto ao traçado da via, 5.937 acidentes ocorreram
em reta (tangente). Quanto ao sexo dos condutores, 14.025
eram do sexo masculino e 571 do sexo feminino, aproximadamente
4%. Com relação ao tempo de habilitação,
a maioria dos condutores se concentra na faixa entre 05
e 25 anos de habilitação. Nesse caso, os dados
são distribuídos simetricamente por faixa
de 05 anos. Do total dos condutores, 13.509 condutores (88%)
usavam o cinto de segurança. As faixas de tempo de
horas dirigidas concentram-se até 3 horas de tempo
ao volante.
Relativamente ao tipo de veículos envolvidos, 6.565
eram ônibus, 3.552 automóveis, 1.655 caminhões
e 1.438 eram microônibus. Verificamos, assim, o elevado
número de acidentes envolvendo veículos de
grande porte. Em 80 acidentes, os veículos envolvidos
eram ônibus e microônibus entre si.
Com relação à condição
dos mortos, o maior número foi o de passageiros -
419, seguido de condutores, 251. O número de pedestres
atropelados e mortos foi de 80 decorrentes de 220 atropelamentos.
Pode-se inferir a partir desses números que a ausência
do hábito do uso do cinto de segurança por
parte dos passageiros eleva o número de vítimas.
No ano de 2003, o Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada - IPEA, publicou pesquisa sobre impactos sociais
e econômicos dos acidentes de trânsito nas aglomerações
urbanas, verificando que um acidente de trânsito sem
vítimas tem custo médio de R$ 3.262,00, um
acidente com ferido tem custo médio de R$ 17.460,00
e um acidente com morte te um custo médio de R$ 144.143,00.
Na hipótese de se aplicar esses valores aos acidentes
de trânsito envolvendo ônibus/microônibus
nas rodovias federais teríamos custos de R$ 17.787.686,00,
de R$ 30.816.900,00 e de R$ 60.684.203,00, para acidentes
sem vítimas, acidentes com feridos e acidentes com
morte, respectivamente, totalizando um montante de R$ 109.288.789,00.
Levando-se em conta que um acidente com morte envolvendo
ônibus/microônibus, dado que um acidente desse
porte tem um número elevado de mortes, os custos
podem superar esse montante total.
Diante dessas evidências, não se pode negar
que os acidentes rodoviários envolvendo ônibus/microônibus
representam prejuízos significativos, tanto econômicos
como sociais, para as pessoas, para as empresas transportadoras
de passageiros, para o Estado e para a sociedade em geral.
Tendo em vista os resultados deste estudo, recomenda-se
a adoção de políticas específicas
para a redução de acidentes rodoviários
envolvendo ônibus/microônibus, principalmente
os acidentes com vítimas. Como sugestão, indicamos:
a) capacitar os motoristas rodoviários de transporte
de passageiros quanto às normas de circulação;
b) priorizar políticas para educação
e orientação de pedestres, com cuidado especial
para os indigentes e andarilhos que circulam em grande número
às margens as rodovias;
c) adotar políticas específicas para motociclistas
quanto à circulação nas rodovias;
d) regulamentar a jornada de trabalho dos motoristas rodoviários,
incluindo aí, motoristas de ônibus e de caminhões;
e) normatizar a fiscalização da jornada de
trabalho dos motoristas rodoviários do transporte
de passageiros e de cargas;
f) normatizar e fiscalizar o uso de cinto de segurança
pelos passageiros de veículos de transporte coletivo;
g) garantir a proteção da faixa de domínio
e das áreas lindeiras das rodovias no sentido de
evitar a circulação de animais nas vias;
h) manter em boas condições de trafegabilidade
as rodovias, bem como a sinalização horizontal
e vertical.
Fonte: Estradas.com.br |