| 2005
| NOVEMBRO - DEZEMBRO l COLUNA ESPECIAL
- RETROVISOR
O carro de quase 1 milhão
Junho de 1973. Tiros durante a madrugada. Desse modo,
a revista Quatro Rodas mostrava a todo o país o novo
modelo da Volkswagen, numa época em que os lançamentos
eram guardados a sete chaves pelas fábricas e chegavam
até mesmo a circular “disfarçados”
pelas ruas.
(*)
Renato Bellote Gomes
O
carro em questão era a Brasília. Com nome
de capital federal e trejeitos de perua – daí
a designação feminina - o projeto do carro
surgiu no início da década de 70, com a clara
intenção de ocupar o lugar do Fusca. Mas o
maior medo da Volkswagen era, sem sombra de dúvida,
a concorrência, principalmente quando o modelo ganhou
as ruas, disputando mercado com Chevette e Dodge Polara.
Esteticamente bonita para a época, a Brasília
trazia um porta-malas razoável na frente –
pelo menos se comparado ao “apertadinho” do
Fusca - juntamente com o estepe. A grade na traseira era
sua marca registrada, e também o fato de ter apenas
uma saída de escapamento. Ela caiu no gosto do brasileiro
porque apresentava a robustez do “besouro” com
espaço para quatro pessoas.

Falando em mecânica, o modelo utilizava o confiável
propulsor de quatro cilindros opostos refrigerado a ar,
com 1.600 cm³ e apenas um carburador, desenvolvendo
então 60 cavalos de potência. Lembrem-se que,
nessa época, a VW defendia os motores boxer a todo
custo, em detrimento dos refrigerados a água.
Um detalhe interessante é que o chassi utilizado
pela Brasília era único, o que lhe dava um
melhor comportamento dinâmico nas curvas e também
mais estabilidade do que o Fusca. A velocidade máxima
não empolgava – por volta de 130 km/h –
mas também não precisava mais do que isso
para agradar seu público, já que o ruído
interno era elevado.
Para incrementar seu desempenho surgiram versões
especiais, como a da concessionária Dacon de São
Paulo, que incluía um comando de válvulas
mais “bravo”. Em 1974, a revista Auto Esporte
testou cinco modelos “envenenados”, com direito
a carburação dupla, suspensão rebaixada
e aumento da cilindrada. Nas telas de TV, quem era criança
na década de 80, certamente vai se lembrar do modelo
do “Seu Barriga” - com filetes no pára-choque
- que fez algumas aparições no seriado Chaves.
Deve ser destacada também sua participação
nas pistas brasileiras. O piloto Ingo Hoffmann, sob o comando
de sua “Brasa” azul de número 17 –
que tem até réplica competindo atualmente
– faturou os 500 km de Interlagos e o campeonato paulista
de 1974, na classe A.

“Mais economia, melhor desempenho” era o slogan
de 1976, quando o modelo passou a ser equipado com dois
carburadores, gerando um aumento discreto na potência.
A concorrência batia à porta – com o
Fiat 147 – e mais alguns itens de conforto e segurança
foram incorporados naquele ano.
A versão de quatro portas chegaria em 1979, mas
foi rejeitada pelos consumidores, com exceção
dos motoristas de praça. O lançamento do Gol,
no ano seguinte, desferiu o golpe final no modelo, que teve
uma queda brusca nas vendas.
Depois de nove anos de sucesso – inclusive para exportação
- e quase um milhão de unidades vendidas no país,
a produção foi encerrada em 1982. Robustez
e durabilidade foram apenas duas características
do carro que fez parte da vida de milhares de famílias
brasileiras.
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(*) Renato Bellote Gomes
(*) Renato Bellote Gomes, 26 anos, é bacharel em
Direito e assina quatro colunas sobre antigomobilismo na
internet. O autor tem textos publicados em nove países
de língua espanhola e é correspondente do
site português Lusomotores
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