| ROLLS-ROYCE
PRESIDENCIAL
História do ROLLS-ROYCE
da Presidência da República
Autoria de
Antonio Sérgio Ribeiro
e José Antonio Penteado Vignoli

Certamente
o Rolls-Royce usado pela presidência da República,
desde muitos anos, é o automóvel mais fotografado
e conhecido do Brasil.
Há quase cinco décadas, o suntuoso modelo
Silver Wraith* (Espectro de Prata) conversível serve
à presidência da República.
Poucos sabem, porém, que a presidência dispunha
de dois Rolls-Royce: o conhecidíssimo conversível
e um desconhecido modelo fechado.
Os veículos eram utilizados para os deslocamentos
de rotina do presidente da República num procedimento
muito diferente do de hoje, uma vez que o automóvel
remanescente - conversível - é usado atualmente
somente em ocasiões especiais, como na posse do presidente
e no desfile do Dia da Pátria em Brasília.
Afora estas ocasiões, a utilização
é esporádica.
O AUTOMÓVEL
A Rolls-Royce, em diferentes períodos de sua história,
seguiu a política de produzir um modelo único
de chassi; eram estes chassis que recebiam a carroçaria
que havia sido escolhida e encomendada pelo comprador. Na
verdade ela fabricava e montava toda a parte mecânica
do automóvel (chassi, motor, câmbio, direção,
rodas e o famoso radiador) e entregava para a posterior
montagem da carroçaria. Mesmo assim, o automóvel,
quando completo, continuava sendo chamado pela denominação
dada pela Rolls-Royce, neste caso, Silver Wraith.
O modelo Silver Wraith foi desenhado antes da II Grande
Guerra, porém sua produção se iniciou
somente em abril de 1946. Ele veio para substituir o modelo
Wraith fabricado até o início da guerra.
Neste novo modelo, foram feitas algumas modificações
no motor, o chassi ficou 3,48cm mais curto (no modelo standard),
a suspensão dianteira foi revista e os freios dianteiros
passaram a ser hidráulicos. Durante o tempo em que
foram produzidos, os modelos Silver Wraith foram recebendo
aperfeiçoamentos técnicos até o final
da produção em 1958.
Também um chassi com distância entre eixos
mais longa era oferecido como opcional, porém passou
a ser o preferido pelos encarroçadores e são
deste tipo os 2 veículos presidenciais. (no chassi
standard a distância entre eixos é de 3,225
metros e na versão "long wheelbase" é
de 3,378 metros).
Em teste realizado pela revista especializada Autocar
publicado em abril de 1946, o Silver Wraith foi considerado
o melhor Rolls-Royce jamais construído. Ele reunia
não só o refinado desempenho - já associado
com a marca - como também uma ótima performance
ao rodar. Na opinião da revista era um carro para
"connaisseurs" de automóveis, fazendo um
paralelo com os conhecedores de bons vinhos...
Seu funcionamento era descrito como suave e silencioso
em qualquer velocidade considerando-se, inclusive, a máxima
que é de aproximadamente 145 Km/h.
O motor tem seis cilindros em linha com 4.257 cc de potência,
o câmbio é de quatro marchas sendo a primeira
não sincronizada. A direção é
do tipo convencional (a direção "hidráulica"
foi oferecida somente em 1956) e a lubrificação
do chassi é feita por um sistema centralizado que
funciona através de uma bomba acionada pela pressão
do pé do motorista. As rodas são aro 16 e
os pneus são 7.50 X 16.
Por muitos é considerado o último verdadeiro
Rolls-Royce. Foi o último modelo a não ter
uma carroçaria definida pela fábrica, mas,
sim, pelo comprador, que podia escolher entre os vários
encarroçadores (coachbuilders) para deixar seu modelo
absolutamente exclusivo. Os automóveis encomendados
pela presidência, por exemplo, tem uma carroçaria
da H.J. Mulliner.
No total foram produzidos somente 639 chassis "long
wheelbase" o que atesta a raridade dos modelos presidenciais.
A CARROÇARIA
A Mulliner era uma das mais tradicionais empresas no ramo
de carroçarias da Inglaterra, tendo iniciado suas
atividades em 1900 e atendendo, desde então, a "nobre
sociedade do Império Britânico".
A Segunda Guerra Mundial, porém, provocou sérias
modificações na sociedade e nos métodos
industriais, fazendo com que empresas como a Mulliner perdessem
mercado. Com o fim da produção do Silver Wraith,
em 1958, já não havia mais chassis sendo produzidos
em série que pudessem receber carroçarias
diferenciadas (houve exceção, porém
foram fabricados muito poucos outros modelos após
1958) e conseqüentemente não havia mais condições
da Mulliner sobreviver como empresa independente. Em 1959,
a Rolls-Royce absorveu a empresa que logo após foi
fundida com outra do mesmo ramo, a Park Ward. Finalmente
esta unidade foi desativada em 1968, encerrando, assim,
a era dos grandes encarroçadores da Inglaterra.
O preço variava de acordo com o modelo de carroçaria
e dos detalhes escolhidos pelo comprador.
O ABERTO (CONVERSÍVEL) E O FECHADO
Os dois automóveis encomendados pela presidência
foram fabricados com diversos detalhes especiais para que
pudessem servir ao presidente da República. A fábrica
cuidadosamente tratou de observar estes detalhes, que foram
incorporados ao projeto, tais como: plataforma no pára-choque
traseiro e nos estribos laterais, ambos reforçados
para suportar o peso dos seguranças, mastros para
o uso de bandeiras nos pára-lamas dianteiros, velocímetro
no compartimento traseiro, etc.
Os preços finais, constantes nas notas (invoices)
dos modelos encomendados pela presidência foram os
seguintes:
Limousine Fechada: £ 5,831 sendo £ 4.560 o automóvel
e £ 1.271 pelos extras (£ 6.205 incluindo-se
frete e seguro).
Limousine Aberta: £ 7.540 sendo £ 6.975 o automóvel
e £ 565 pelos extras (£ 7.949 incluindo-se frete
e seguro).
O preço dos chassis foi de £ 2.135 cada e a
diferença relacionada as carroçarias.
A fábrica concedeu um desconto de 20% sobre o preço
dos chassis e de 15% sobre o preço das carroçarias
e de seus detalhes extras e estes descontos tinham, normalmente,
como favorecidos as empresas importadoras.
Pode-se notar que o preço da carroçaria era
extremamente alto, principalmente para a conversível,
pois já não existiam construtores no mundo
dispostos a fabricar automóveis deste porte em modelos
abertos.
Para que se possa ter uma idéia de valores, com o
preço da limousine aberta seria possível comprar,
na época, na Inglaterra, algo como 7 automóveis
Jaguar do tipo XK 120 !
TESTEMUNHAS DA HISTÓRIA
Verdadeiras testemunhas da história recente de
nosso país, os Rolls-Royce transportaram, além
de vários os presidentes da República pós-Getúlio
Vargas, inúmeros visitantes ilustres.
O modelo aberto foi usado, pela primeira vez, numa cerimônia
pública em 1o. de maio de 1953 por Getúlio
Vargas durante as comemorações do Dia do Trabalho
em Volta Redonda e o primeiro visitante estrangeiro a se
utilizar do automóvel foi o Presidente do Perú,
General Manoel Odria em 25 de agosto de 1953 quando estava
em visita ao Brasil.
Depois dele, utilizaram-se do automóvel muitas outras
autoridades, tais como o Rei Balduino da Bélgica,
o presidente francês General Charles de Gaulle, a
Rainha Elizabeth II da Inglaterra e muitos outros chefes
de Estado e de governo que visitaram o Brasil.
Apesar de todo este currículo, as origens dos tão
conhecidos automóveis se perderam no tempo e a realidade
foi sendo substituída por várias lendas que
foram tomando corpo e substituindo os verdadeiros fatos.
O resultado deste processo de desinformação
coletiva - de forma proposital ou não - fez crer
ao público que o automóvel conversível
havia sido um presente da Rainha Elizabeth II ao presidente
Getúlio Vargas em 1953 e o fechado simplesmente desapareceu
da memória dos brasileiros.
Tal doação nunca foi comprovada e agora, finalmente,
tem-se a possibilidade de recompor a trajetória dos
automóveis não através de simples e
incertas lembranças, mas através de entrevistas,
documentos e farta bibliografia.
NOVOS CARROS PARA A PRESIDÊNCIA
Getúlio Vargas tomou posse em seu segundo período
como presidente em 31 de janeiro de 1951 e passou a usar
os dois Cadillacs que serviam à presidência
desde muito tempo, os modelos 1941 fechado e 1947 aberto.
Ainda em 1951, o Major Ene Garcez dos Reis, chefe do pessoal
da Presidência da República e responsável
pelo Serviço de Transportes da Presidência
recebeu ordens do presidente Getúlio Vargas para
providenciar a compra de dois automóveis que iriam
substituir os Cadillacs.
Segundo documento da época, o major tomou as providências
para tal substituição tendo, inclusive, feito
"a necessária coleta de preços nos EUA,
e na Inglaterra, sendo, então, escolhidos dois modelos
Rolls-Royce, pelas condições apresentadas
pela respectiva fábrica, à qual foi feita
a encomenda". Provavelmente a possibilidade da Rolls-Royce
e da H.J. Mulliner construírem um automóvel
conversível (o que já não se fazia
nos EUA) pesou na escolha.
Tais aquisições foram feitas através
do Sr. Gastão Correia da Veiga Filho da Companhia
Comercial de Motores e Veículos (Avenida Rio Branco,
85 - 13O andar, Rio de Janeiro) que havia apresentado a
proposta à presidência em 9 de agosto de 1951
e que era, naquela época, a representante geral para
o Brasil de tradicionais marcas inglesas de automóveis
tais como MG, Morris-Oxford, Wolseley e Riley e que consta,
perante a Rolls-Royce, como sendo o revendedor dos automóveis
encomendados.
Já em abril de 1952, os automóveis começaram
a ser fabricados seguindo especificações solicitadas
pela presidência.
Em 31 de janeiro de 1953, o presidente Getúlio Vargas
recebeu em Petrópolis, quando do início de
suas férias, o primeiro automóvel, o fechado.
OS CARROS E A RAINHA
O primeiro fato que merece ser esclarecido é que
a rainha Elizabeth II foi coroada em 2 de junho de 1953,
sucedendo a seu pai Jorge VI que faleceu em 6 de fevereiro
de 1952 sem nunca ter estado no Brasil. Isto nos leva a
concluir que quando de sua coroação os automóveis
já haviam inclusive sido entregues.
Cabe lembrar que a presidência confirmou o pedido
em 1º de fevereiro de 1952 e a Rolls-Royce o recebeu
entre fevereiro e abril de 1952 e finalmente iniciou o embarque
dos automóveis para o Brasil no início de
1953.
Também cabe considerar que a princesa não
teria nenhuma razão e, talvez, nem poder, para presentear
com dois automóveis Rolls-Royce o presidente de um
país que, inclusive, estava com sérios problemas
com relação às dívidas acumuladas
junto à Inglaterra.
A COMPRA DE QUATRO AUTOMÓVEIS
Em 28 de julho de 1953, o Senador Alencastro Guimarães
(PTB) denunciou, da tribuna do Senado, a emissão
de uma licença de importação para a
compra de quatro automóveis junto à Rolls-Royce
e não somente dois para a presidência; segundo
ele, faziam parte de um negócio onde os dois "extras"
seriam vendidos no mercado negro por uma firma particular.
O Senador condenava não só o "esquema",
como também a compra dos novos carros para a presidência,
alegando que não era momento para se efetuar tal
compra, diante das dificuldades do Brasil no tocante às
importações de artigos de luxo.
Na verdade a própria confirmação
da encomenda que foi encaminhada ao importador era estranha
uma vez que deixava claro que os carros da presidência
tinham que seguir as especificações, porém
pedia outros dois automóveis para poder escolher
melhor...
Trechos deste curioso ofício são muito importantes
para que possamos entender as dúvidas do senador.
"... 2. A Presidência da República têm
necessidade de dois (2) automoveis com as seguintes caracteristicas:
a) Um (1) automovel modelo "Enclose Lomousine";
b) Um (1) dito do mesmo modelo, conversivel, com capota
de lona;
c) Côr preta;
d) Estribos laterais reforçados, devendo suportar
o pêso de três (3) pessôas;
e) Parachoque anterior e posterior reforçados, com
uma chapa de aço entre os mesmos e a carroceria,
servindo como estribo, devendo suportar o pêso de
duas (2) ou mais pessôas.
3. Afim de possibilitar a escolha dos automóveis
entre mais de um modelo, deverão ser apresentados
pelo menos quatro (4) automoveis, ficando ressalvado que
à Presidência só interessa a aquisição
de duas (2) unidades, com as caracteristicas acima enumeradas.
4. Os automoveis em fóco, no caso de ser necessária
a importação, deverão vir consignados
à Presidência da República. ..."
(grifo nosso)
Interessante refletir sobre a real necessidade de se trazer
quatro automóveis se só interessavam dois
tão bem especificados, porém existe ainda
uma segunda versão contada pelo Sr. Gastão
onde os outros dois outros automóveis seriam também
utilizados na presidência, mas as pressões
políticas fizeram com que o governo resolvesse se
desfazer destes dois outros Rolls-Royce.
A SITUAÇÃO CÂMBIAL
Na década de 50, logo após o término
da II Guerra Mundial, o país estava com uma demanda
reprimida de automóveis e caminhões, devido
à falta destes produtos no mercado internacional
por conta do esforço de guerra dos países
tradicionalmente exportadores de veículos.
Neste tempo, a reposição e renovação
da frota nacional atingia valores muito elevados, prejudicando
sobremaneira a balança comercial. Para que se possa
ter uma idéia de valores de importação,
só de caminhões, ultrapassava a conta de importação
de petróleo e trigo juntas !
Já em 1948, foi instituído um regime de importação
que exigia a emissão de uma "licença
prévia" (lei 262 de 23/2/1948), visando controlar
a entrada de bens importados no país.
Seguindo esta mesma linha, no segundo período presidencial
de Getúlio Vargas, quando era então presidente
do Banco do Brasil o Sr. Ricardo Jafet (presidente do Banco
do Brasil, por indicação de Adhemar de Barros,
até 12 de janeiro de 1953, quando se demitiu), foi
criada a CEXIM - Carteira de Exportação e
Importação do Banco do Brasil, cujo objetivo
era justamente exercer o controle do fluxo cambial através
da restrição às importações,
principalmente de artigos considerados de luxo que estavam
inundando o mercado nacional. As importações
de artigos de luxo aconteciam em detrimento do uso das reservas
cambiais para reequipar a indústria nacional, as
ferrovias, a frota de caminhões e outros setores
produtivos da economia que necessitavam de equipamentos
mais modernos.
Apesar do objetivo importante da CEXIM, como controladora
do fluxo do comércio exterior, os abusos não
demoraram a aparecer pois, por estar este departamento nas
mãos de poucos, o poder de conceder ou não
as licenças de importação dependiam
de muitos fatores, inclusive burocráticos. Segundo
se dizia na época, o poder desta repartição
se tornou um ótimo pretexto para o velho princípio
de "criar dificuldades para vender facilidades".
Não tardou e a CEXIM se tornou uma grande geradora
de escândalos e protestos por parte da imprensa e
até dos políticos.
A situação era tão grave que foi
criada em 10 de fevereiro de 1951 uma comissão de
inquérito com o fim de esclarecer as diversas denúncias
contra o sistema de licenças prévias que vinha
sendo alvo de críticas desde sua criação
no governo Dutra.
COMO "TRAZER" UM CARRO NOVO E AS CONTAS EXTERNAS
Nem tudo caminhava conforme exigia a difícil situação,
pois, neste período, a sociedade brasileira assistia
a um escandaloso comércio de automóveis de
luxo, principalmente Cadillacs.
Os automóveis entravam no país de diversas
formas, inclusive através do uso de passaportes de
pessoas que passavam mais de seis meses fora do país.
(cumprindo este prazo passavam a ter o direito de trazer
tais automóveis como "bagagem"). Estes
passaportes, de pessoas, nem sempre envolvidas diretamente
na compra de veículos eram cotados por um mercado
próprio que tratava de trazer os automóveis
de luxo usando este "salvo conduto" para depois
revendê-los a preços altíssimos.
A lei também era benevolente com outras parcelas
minoritárias da sociedade já que podiam importar
veículos livremente os congressistas, os militares
e as repartições públicas. Não
se pode esquecer também as embaixadas e consulados
que repassavam os seus automóveis para brasileiros
que circulavam com a famosa "4a. via de importação"
e os documentos em nome do importador original.
Como agravante, as contas externas do Brasil com a Inglaterra,
neste período, estavam passando por uma situação
delicada pois o Brasil devia àquele país cerca
de £ 65.000.000 e esta dívida estava sendo
rediscutida para que fosse feito um acordo de reescalonamento
dos pagamentos. Tal acordo só foi finalizado em 1954,
quando, então, houve a normalização
das importações em Libras.
OS OUTROS DOIS AUTOMÓVEIS
No dia 1º. de janeiro de 1953 foi embarcado no navio
R.M.S. Highland Princess o primeiro dos dois automóveis
encomendados pelo Major Ene; porém, neste mesmo navio
e nesta mesma data estava sendo embarcado também
um outro Rolls-Royce.
Tratava-se de um modelo Silver Wraith, de chassi normal,
carroçaria Touring Limousine de cor preta, que já
estava pronta para ser faturada em setembro de 1952, mas
que ficou aguardando, não se sabe por qual motivo,
o embarque do primeiro carro da presidência para também
seguir rumo ao Brasil. Este era justamente um dos dois outros
automóveis para a posterior escolha.
No dia 20 de janeiro de 1953 foi embarcado no navio R.M.S.
Highland Monarch o outro Rolls-Royce fora das especificações
presidenciais, também modelo Silver Wraith de chassi
normal e carroçaria Touring Limousine, porém,
desta vez, na cor cinza em dois tons.
Cada um destes dois automóveis custou £ 4.455
(o custo total com frete e seguro ficou em
£ 4.813 e £ 4.843 respectivamente)
Finalmente, o modelo conversível foi faturado em
21 de janeiro de 1953 e embarcado no R.M.S. Highland Princess
em 26 de março de 1953.
E AGORA, O QUE FAZER COM QUATRO AUTOMÓVEIS?
Segundo é relatado pelo Major Ene, quando da chegada
do primeiro automóvel (a limousine fechada), em janeiro
de 1953, "um grupo de amigos do Dr. Getúlio
Vargas resolveu oferecer-lhe o automóvel , para seu
uso particular e oficial". Segundo o importador Sr.
Gastão este grupo de amigos era liderado por Euvaldo
Lodi, deputado e presidente da Confederação
Nacional da Indústria naquele momento.
Segundo depoimento da Sra, Alzira Vargas do Amaral Peixoto
o mesmo procedimento foi adotado quando da chegada do segundo
automóvel (a limousine aberta) o que não é
confirmado pelo Sr. Gastão.
Os outros dois que foram o motivo principal das considerações
do Senador Alencastro Guimarães foram taxados e colocados
à disposição da importadora que posteriormente
os revendeu conforme já comentamos.
Desta forma, os quatro automóveis permaneceram no
país, sendo que os dois presidenciais foram faturados
e emplacados em nome do presidente Getúlio Vargas
"tendo sido tomadas as providências junto aos
órgãos competentes".
Estando o caso de certa forma resolvido, resolveu o presidente
que os automóveis deveriam ter características
de carros oficiais, tanto para uso do presidente, como para
efeito de manutenção. O custo de manutenção
dos presentes era obviamente alto...
Segundo consta, o presidente tomou esta deliberação
pois tinha a intenção de doar à presidência
da República os automóveis no término
de seu mandato.
Neste momento, o Chefe do Gabinete Militar, General Aguinaldo
Caiado de Castro, determinou que os automóveis fossem
relacionados no Serviço de Transportes da Presidência
da República inclusive emplacando-os com placas oficiais
baixando-se assim, nos órgãos de trânsito,
as placas particulares.
O PAGAMENTO DOS AUTOMÓVEIS
Após a denúncia do Senador Alencastro Guimarães,
o Congresso requisitou ao Ministério da Fazenda esclarecimentos
sobre a importação dos automóveis.
Estes esclarecimentos, na forma de um ofício da Alfândega
do Rio de Janeiro e de um ofício do General Caiado
de Castro, foram encaminhados à Câmara dos
Deputados pelo ministro da Fazenda.
Estes documentos revelam que:
1. As licenças de importação foram
emitidas pela CEXIM em 27 de março de 1953. (Esta
é a mesma data que consta do documento de propriedade
do automóvel comprado pela empresa Imobiliária
Santa Therezinha como será visto mais adiante);
2. Os quatro automóveis foram desembarcados na
alfândega do Rio de Janeiro com isenção
ampla de direitos e taxas, nos termos do artigo 11, inciso
1º do Decreto-Lei número 300 de 24 de fevereiro
de 1938. (Regula a concessão de isenção
e redução de direitos aduaneiros. ...Capítulo
II - Das isenções de direitos de importação
para consumo e demais taxas aduaneiras. Art. 11 - Será
concedida isenção de direitos de importação
para consumo e demais taxas aduaneiras: I) às mercadorias
e materiais que forem importados por conta da União
para o serviço da República: ...);
3. Os dois automóveis não presidenciais ("normais")
foram colocados à disposição da empresa
importadora e sobre eles foram cobradas todas as taxas devidas
(vide tabela abaixo). Desta forma os automóveis que
entraram no Brasil por Cr$ 13.560,89 acabaram custando Cr$
55.330,54 cada um !
4. A justificativa dada para a importação
de quatro automóveis foi que, dos quatro, dois seriam
escolhidos pela presidência; esta explicação,
porém, não é convincente uma vez que,
como dissemos, os automóveis presidenciais tinham
características próprias para o fim a que
se destinavam e que os outros eram absolutamente "normais".
(vide tabela anexa)
5. O pagamento dos automóveis foi realizado em favor
da Rolls-Royce Ltd., London em 25 de novembro de 1952 através
do crédito de número 52.436 gerado pelo fechamento
do câmbio que foi feito no dia 24 pelo corretor Jorge
de Souza Gomes no Banco Lowdens S/A (a sede deste banco
era na Av. Presidente Vargas, 290 - RJ). Desta forma, a
importadora Companhia Comercial de Motores e Veículos
pagou £ 24.000 pelos automóveis. Eis a prova
final de que os automóveis não foram presenteados
ao Brasil por ninguém.
Abaixo podemos verificar o preço final, em cruzeiros,
pago por cada automóvel, tendo como base as informações
prestadas ao Congresso pelo Ministro da Fazenda.
Limo aberta Limo fechada "normal" preta "normal"
cinza
Preço no porto do Rio em Cr$ 22.258,99 17.292,00
13.560,89 13.560,89
Direitos de importação 0,00 0,00 14.227,50
14.227,50
Adicional de 10% 0,00 0,00 1.432,80 1.432,80
Emolumentos Consulares 0,00 0,00 1.722,25 1.722,25
Previdência Social 2% 0,00 0,00 5.088,80 5.088,80
Imposto de consumo 0,00 0,00 19.296,50 19.296,50
Imprensa Nacional 0,00 0,00 1,80 1,80
Preço total em Cr$ 22.258,99 17.292,00 55.330,54
55.330,54
O SUICÍDIO DE VARGAS
Após os acontecimentos da Rua Tonelero, o presidente
Vargas comete o suicídio em 24 de agosto de 1954.
Aí se inicia outra fase na história dos Rolls-Royce.
A tal doação planejada pelo presidente nunca
chegou a se concretizar e conseqüentemente os automóveis
continuaram a pertencer ao cidadão Getúlio
Vargas. Após sua morte, seus herdeiros reclamaram
ao governo a entrega dos automóveis que lhes pertenciam.
Para o governo, a situação era bastante delicada,
pois ninguém já se lembrava do caso e os automóveis,
principalmente o conversível, já eram bastante
conhecidos e faziam parte da história do país.
Já em dezembro de 1954, o Coronel Auriz Coelho e
Silva, novo Chefe do Pessoal da Presidência da República
no governo Café Filho, começa a procurar entender
a história dos automóveis para que pudesse
ser feita a entrega dos mesmos à família ou,
ainda, se discutir um acordo que preservasse os automóveis
para o uso da presidência.
Não foi uma negociação fácil
pois o caso só seria resolvido após junho
de 1957, já no governo Kubitschek, quando a limousine
fechada acabou sendo entregue para a família em troca
da permanência da conversível no Serviço
de Transportes da presidência.
Neste período de negociações, os automóveis
continuaram sendo usados normalmente pelo governo e o último
visitante estrangeiro a usar a limousine fechada foi a senhora
Berta Craveiro Lopes,mulher do presidente de Portugal, General
Craveiro Lopes, durante sua visita ao Brasil em junho de
1957.
Após este acordo, os automóveis passaram a
ter destinos bem diferentes.
O CAMINHO DE CADA UM
1) A limousine presidencial aberta
Continuou
- e continua - a ter presença destacada no cenário
nacional. Pode-se dizer que, para o grande público
presente num desfile, a aparição do Rolls-Royce
é sempre um acontecimento.
2) A limousine presidencial fechada
Após ser entregue para a família do Presidente
Vargas, foi logo vendida (segundo publicado na época,
pelo valor de Cr$ 4 milhões) para o empresário
Victor Costa, que atuava no ramo das comunicações
e que foi diretor da Rádio Nacional. Ele faleceu
em 22 de dezembro de 1959.
O automóvel, já em janeiro de 1960, foi colocado
à venda numa loja na rua Barata Ribeiro em Copacabana
quando então foi vendido para Alberto Pittigliani
(marido de Terezinha Morango, Miss Brasil 1957) que logo
após a compra o colocou à disposição
de diversas artistas de cinema, entre elas, Kim Novak e
Zsa Zsa Gabor, que vieram passar o carnaval de 1960 no Rio
de Janeiro.
Posteriormente, o carro foi adquirido pelo empresário
e jornalista Assis Chateubriand que o registrou em nome
de uma de suas empresas.
Tendo em vista problemas junto à previdência
social o automóvel acabou sendo penhorado.
Por muitos anos este automóvel ficou guardado na
garagem de um prédio da Receita Federal em São
Paulo e foi necessário até fazer um "cercadinho"
para evitar o olhar e os dedos dos curiosos... Somente em
1994 o automóvel foi levado à asta pública
tendo sido arrematado por um colecionador de São
Paulo.
Hoje o carro está totalmente restaurado, tendo inclusive
ganho prêmios em exposições especializadas;
porém, atualmente, vem cumprindo um papel pouco nobre
(tendo em vista seu passado), pois é regularmente
alugado para levar noivas às igrejas.
3) O Rolls-Royce "normal" - preto
Foi comprado em nome de uma empresa chamada Imobiliária
Santa Therezinha e registrado no departamento de trânsito
em 27 de março de 1953 (mesma data da liberação
da licença de importação pela CEXIM).
Esta empresa fazia parte do grupo empresarial da família
Maluf. A Sra. Maria Estéfano Maluf, sogra do já
citado Sr Ricardo Jafet utilizou o automóvel até
alguns anos atrás. Hoje o carro faz parte de uma
coleção particular.
4) O Rolls-Royce "normal" - cinza em dois tons
Foi comprado pela família Peixoto de Castro, do Rio
de Janeiro que ainda o mantém.
REVENDO OS FATOS
O fato de se revisar a história não tira
o brilho dos automóveis.
O conversível merece toda a nossa admiração.
Como dissemos, é o automóvel mais fotografado
e conhecido do Brasil, além de sempre ter sido tratado
com muito carinho pelo pessoal da Presidência da República.
É realmente um patrimônio nacional.
Neste momento, passados 48 anos de bons serviços
prestados, o Rolls-Royce presidencial está passando
por um grande trabalho de restauração que
dará novo brilho àquele que há muitas
gerações desfila, grandioso e solene, nas
datas cívicas de maior relevância para nosso
país.

Autoria de Antonio Sérgio Ribeiro
e José Antonio Penteado Vignoli
Fotos: Antônio Cruz
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