ESPECIAIS - UM HOMEM QUASE PERFEITO
Leonardo da Vinci

PARECE impossível, mas é mesmo verdade: quase 500 anos depois da morte de Leonardo da Vinci, os seus inventos ainda continuam bem vivos e actuais. Dois exemplos recentíssimos bastam para comprovar a modernidade e a visão do futuro daquele que é, para muitos, o maior génio do segundo milénio da era cristã.

Durante a leitura desse texto, você notará notações de acordo com a língua portuguesa, de portugal.


Eis o primeiro helicóptero da história, desenhado com grande elegância em 1480. Só que Leonardo não deixou qualquer indicação de como se punha esta máquina a funcionar

O primeiro foi m robô humanóide que foi lançado pela NASA com o «Mars Polar Lander», uma sonda destinada a aterrar na superfície gelada do pólo sul do planeta vermelho, exatamente onze meses depois. Esta missão está integrada no programa «Mars Surveyor 98» e tem como objectivo estudar o clima de Marte e detectar água gelada no seu subsolo. O robô, dotado de grande mobilidade, foi feito com base nos desenhos de Leonardo relativos às articulações humanas da coluna dorsal, do peito, dos cotovelos, dos pulsos e das mãos, considerados pelos especialistas da agência espacial norte-americana como os mais rigorosos do mundo.

É de salientar que Da Vinci incluiu no seu Códice Atlanticus estudos e desenhos de um robô-cavaleiro, e vários investigadores admitem que ele tenha mesmo construído o primeiro robô humanóide da civilização ocidental. Como refere um desses investigadores, Mark Rosheim, no catálogo de uma exposição sobre as invenções na época de Leonardo realizada recentemente na Liberty Street Gallery, em Nova Iorque, «o robô era um desenvolvimento dos seus estudos de anatomia e cinética, e foi concebido de acordo com as regras do Homem Vitruviano», o famoso homem simetricamente perfeito rodeado por um círculo e por um quadrado, desenhado em duas posições diferentes pelo pintor num dos seus manuscritos.



Quatrocentos anos antes do aparecimento do tanque na I Guerra Mundial, Leonardo concebeu este carro de combate com uma base rotativa e uma blindagem de forma cónica, equipado com armas a toda a volta e movido por homens ou por cavalos

Rosheim assinala que o robô-cavaleiro, feito em madeira, metal e cabedal, «foi desenhado para se sentar e levantar, mexer os braços, e mover a cabeça através de um pescoço flexível, enquanto abria e fechava o maxilar inferior». E considera que este artefacto «influenciou os estudos anatómicos posteriores de Leonardo, nos quais ele modelou os membros humanos com cabos, para simular os tendões e os músculos».

O outro exemplo que comprova a modernidade do homem mais famoso da Renascença é também surpreendente. O departamento estatal responsável pelas estradas na Noruega resolveu, no passado mês de Julho, construir uma ponte a partir de um projecto do artista-inventor italiano feito para o sultão turco Bajazet II, mas que acabou por não se concretizar por este monarca o ter considerado inviável. A ponte, com cerca de 346 metros de comprimento, foi concebida por Da Vinci em 1502 para a baía da Ponta Dourada, no porto de Istambul.

Segundo a agência Associated Press, tudo começou quando um artista norueguês, Vebjoern Sand, viu o modelo desta ponte numa exposição em Estocolmo (Suécia) – um elegante arco em forma elíptica sustentando uma estrada que o acompanha na sua curvatura –, tendo ficado tão fascinado com a sua beleza que tentou tudo por tudo para que ela fosse construída. Contactou o departamento de estradas no seu país, falou com políticos, e o projecto vai avançar no Condado de Akershus, faltando apenas uma decisão final, no próximo mês de Novembro, quanto aos materiais a utilizar na construção da ponte – madeira ou pedra. «É uma obra que nunca foi concretizada, mas o seu projecto serviu de inspiração aos modernos construtores de pontes», afirma Vebjoern Sand, que a considera uma espécie de Mona Lisa das pontes, «a ponte primordial, a combinação perfeita entre arte e função».



A semelhança com as primeiras bicicletas do século XIX é evidente, e o desenho só foi descoberto há poucos anos. O sistema de transmissão está também desenhado no Códice Madrid. Os investigadores são da opinião que Da Vinci deve ter feito desenhos mais elaborados da bicicleta, bem como notas com a explicação do seu funcionamento

Partir da arte para chegar à ciência e à tecnologia foi, de facto, o caminho seguido por Leonardo da Vinci em todos os seus estudos, observações da Natureza e inventos, numa altura em que a ciência não tinha ainda verdadeiramente nascido. Mas mantém-se hoje uma questão controversa onde se cruzam a arte, a investigação científica e a religião de uma forma absolutamente fascinante: a origem do Santo Sudário de Turim, a mortalha que envolveu o corpo de Cristo depois de ser retirado da cruz. A mais sagrada de todas as relíquias cristãs, que é também a mais estudada da História, encontra-se no centro de uma polémica recente e uma nova tese, que defende que o Sudário foi forjado por Da Vinci, parece estar a ganhar adeptos. E o mais espantoso desta tese é que a cabeça que figura na relíquia seria a do próprio pintor, dadas as semelhanças com o seu auto-retrato, tendo este fabricado a mortalha com base em técnicas fotográficas, cerca de 400 anos antes de a máquina fotográfica ser inventada!

No passado dia 8 de Agosto, uma reportagem da BBC na RTP2 (no programa «O Lugar da História») dava precisamente conta da evolução mais recente desta polémica. A hipótese do Santo Sudário, hoje guardado na Catedral de Turim, ter sido «inventado» por Leonardo é defendida por dois investigadores ingleses, Lynn Picknett e Clive Prince, que chegaram a essa conclusão sensivelmente na mesma altura que dois outros colegas de profissão: Nicholas Allen, da África do Sul, e Maria Consolata Corti, uma investigadora italiana de Turim. «Há muitas inconsistências no Sudário que apontam para a intervenção humana», afirma Lynn Pickett, destacando o facto de, desde que foi fotografada pela primeira vez nos finais do século XIX, ganhando tridimensionalidade, a relíquia «se comportar como uma fotografia ao ser analisada, e é exactamente isso que ela é». Deste modo, Lynn considera que o Sudário «deveria ser considerado uma obra de arte e figurar como uma verdadeira estrela numa galeria fotográfica de classe mundial». Nicholas Allen vai mais longe. Para ele, a relíquia, na qual houve um investimento emocional de milhões de cristãos durante pelo menos cinco séculos, «é o mais importante objecto religioso, artístico e científico de sempre».



Parecem skis para a neve mas, na verdade, são skis aquáticos em madeira. As hastes, na ausência do precioso auxílio de um barco a motor, serviam para equilibrar o esquiador e ajudá-lo a andar sobre as águas

O processo de fabrico utilizado parece, à partida, bastante simples, para mais executado por um homem que era especialista em anatomia e em tridimensionalidade. E para comprová-lo, os investigadores britânicos deslocaram-se a Itália, à casa onde provavelmente Da Vinci terá pintado a Mona Lisa. Aí, com os materiais e a tecnologia disponíveis nos finais do século XV, e a ajuda da esplêndida luminosidade mediterrânica do céu italiano, repetiram a suposta proeza fotográfica do pintor.

Começaram por construir uma câmara escura em madeira e pano. Como se sabe, uma câmara escura é uma caixa à prova de luz, à excepção de um pequeno orifício numa das suas faces. Leonardo descreveu-lhe claramente o funcionamento nos seus manuscritos (códices), explicando como a luz entra pelo orifício e projecta as imagens invertidas dos objectos na face oposta da câmara.

Picknett e Prince fabricaram então uma solução fotossensível com claras de ovo, urina, sais de amónio e sumo de limão. Os dois primeiros ingredientes eram fundamentais nas tintas usadas pelos pintores da Renascença, servindo a urina para fixar as cores. Quanto aos sais de amónio, eram facilmente obtidos nos alquimistas da época.



Qualquer leigo diria que se trata de um míssil utilizado nas guerras actuais, com o seu desenho fortemente aerodinâmico. Pura ilusão. Era um invento de Leonardo, provavelmente para ser lançado de uma catapulta, e só 300 anos depois, com as guerras napoleónicas, surgiu a primeira geração de armas deste tipo

Depois, pintaram com esta solução um tecido esticado numa moldura de madeira, que deixaram a secar numa sala escura, de modo a torná-la sensível à luz. O tecido foi então colocado na câmara escura, na face oposta ao orifício por onde entravam os raios de luz. Neste lado, a um metro de distância, colocaram um busto em pedra que ficou exposto durante várias horas, numa sala bem iluminada, com grandes janelas. Finalmente o tecido foi lavado para que nas zonas não expostas à luz fosse eliminada a solução fotossensível e de seguida foi secado à lareira. A clara de ovo e a urina queimaram as fibras do tecido à superfície neste processo, desenhando então a imagem da estátua «fotografada», embora com aspecto tosco, inacabado.

Fica por esclarecer uma última questão: que motivações teriam levado Leonardo a «inventar» o Sudário de Cristo? Os investigadores britânicos dizem que Da Vinci pertencia a um movimento secreto (ainda hoje existente) ligado ao culto de S. João Batista, que usava como símbolo um cadáver com a cabeça decapitada. O Sudário, onde figura exactamente o mesmo símbolo (a cabeça está separada do corpo), seria então uma mensagem herética do artista para o futuro: alguém que foi decapitado (S. João Batista, representado pela cabeça de Leonardo) estava acima do crucificado (Cristo, representado pelo corpo de outra pessoa). Para a investigadora italiana Consolata Corti, pelo contrário, as pinturas de Da Vinci eram a expressão de um artista «cheio de piedade religiosa, que se identificava com Cristo e com o seu sofrimento», pelo que a fabricação do Sudário teria sido motivada «por um acto de amor, para dar aos cristãos aquilo que eles desejavam». Além disso, «a imagem obtida é tridimensional e não apenas uma representação de Cristo: ela expressa também a sua alma, desperta um sentimento, uma emoção, atributos muito característicos das pinturas de Leonardo».



Utilizando troncos de madeira e cordas, esta era uma das propostas do artista-inventor para a construção rápida de pontes de emergência para fins militares. Hoje estas pontes são também usadas em caso de catástrofes e desastres naturais

Mas o artista inventou muito mais. No museu instalado no Castelo dos Condes Guidi, na sua cidade natal (Vinci), em Itália, figuram os desenhos originais de cerca de 55 inventos, bem como a sua concretização noutras tantas miniaturas que demonstram com fidelidade para que serviam e como funcionavam. Destes inventos seleccionámos os 11 desenhos que acompanham este texto, e que deram origem a aparelhos e instrumentos que nos são bem familiares. É o caso do pára-quedas, do helicóptero e do inclinómetro, na aeronáutica. Do carro de combate (tanque), da ponte militar, do míssil e do obus, no material de guerra. Ou dos skis aquáticos, do escafandro e da bóia de salvação, na engenharia hidráulica. Ou ainda da bicicleta, na mecânica.

Por vezes temos a sensação de que o maior artista-inventor-arquitecto-cientista-designer-engenheiro de sempre inventou quase tudo o que está relacionado com o movimento: máquinas para voar, automóveis movidos por sistemas de relojoaria, mudanças de três velocidades, sistemas de transmissão, barcos mecânicos, ventiladores, arrojados canhões e máquinas de guerra, e ainda uma imensidão de mecanismos e aparelhos para aplicação na construção, na indústria manufactureira e na hidráulica.


«Leonardo estava profundamente ligado ao movimento, à operação militar e à energia mecânica e foi um dos grandes engenheiros da Renascença», comenta João Caraça, director do serviço de ciência da Fundação Gulbenkian, acrescentando que «os seus inventos tiveram sempre uma perspectiva de integração entre uma função estética e uma função prática ou social». Este professor universitário insiste naquilo que escreveu no seu livro O Que É a Ciência? (editado pela Gradiva), referindo o contributo fundamental de Da Vinci para o desenvolvimento da mecânica e «o papel que esta desempenhou no nascimento da ciência moderna, fruto do sucesso dos projectos e das obras dos grandes 'engenheiros' do Renascimento que, na tradição de Arquimedes, tornaram a 'arte' da guerra num exercício de reflexão e de execução 'quantitativa', quase maquinal». Pela quantidade enorme de áreas que ele tocou e pela qualidade com que o fez, bem como pelos seus objectivos práticos, «Leonardo foi a maior 'encerebração' do mundo ocidental», remata o professor, citando uma frase do seu pai, o conhecido matemático Bento Jesus Caraça.


Hoje é demasiado banal, mas para chegar à forma toroidal da bóia de salvação no século XV, Leonardo teve que observar detalhadamente os movimentos e propriedades da água dos rios, dos lagos e dos mares. Porque é suposto a bóia manter o nadador a flutuar em qualquer posição



É um canhão montado sobre rodas altas e sem escudo protector, dotado de grande mobilidade. Uma vantagem evidente, numa época em que os canhões eram muito difíceis de transportar. Só na Guerra Civil Americana, 300 anos depois, se vão ver pela primeira vez tais artefactos É um canhão montado sobre rodas altas e sem escudo protector, dotado de grande mobilidade. Uma vantagem evidente, numa época em que os canhões eram muito difíceis de transportar. Só na Guerra Civil Americana, 300 anos depois, se vão ver pela primeira vez tais artefactos

O consagrado especialista norte-americano de história aeronáutica Charles Gibbs-Smith afirma, por sua vez, que «não houve nenhum homem, antes ou depois dele, que compreendesse tão bem os mundos gémeos da ciência e da arte». Smith revela também, no seu livro As Invenções de Leonardo da Vinci, a área em que o trabalho do artista-inventor foi talvez menos brilhante: a aeronáutica. Com efeito, «algumas máquinas eram viáveis, mas a maior parte delas era demasiado fantástica e impossível de funcionar». No fundo, poucos projectos de máquinas de Leonardo devem ter sido realizados e utilizados na sua época, porque representavam antes de mais estudos e pesquisas sobre determinadas áreas da ciência e da tecnologia.

Entretanto, na «arte» da guerra, onde o seu génio inventivo foi particularmente brilhante, Da Vinci assumiu posições contraditórias, o que não deixa de ser curioso. Richard Turner, professor de arte na Universidade de Nova Iorque, assinala no seu livro Inventing Leonardo que «por volta de 1490 Leonardo chamou à guerra 'loucura horrível' («bestialissima pazzia», em italiano) e que «alguns dos desenhos de armas de guerra de Da Vinci parecem mais abstracções de considerável beleza, longe do negócio da morte». Talvez a expressão mais representativa desta atitude seja o desenho de um estaleiro de armamento feito pelo artista no final da década de 1480, onde «a qualidade alucinatória da guerra, em que os seres humanos eram arrastados para uma iniciativa horrorosa que degrada a estatura moral dos indivíduos».


Mas se as armas ofensivas do artista-inventor «eram mais exercícios imaginativos do que propostas práticas», acontecia exactamente o contrário no que diz respeito aos seus planos de construção de fortificações defensivas, que tinham em conta as grandes transformações provocadas pelo desenvolvimento da artilharia. Como salienta Richard Turner, «a necessidade de repensar as fortificações à luz das capacidades do canhão, transformaram a Itália num verdadeiro estaleiro de obras públicas durante o primeiro quartel do século XVI».

Em todo o caso, é famosa a carta de Leonardo ao duque Ludovico Sforza, de Milão, onde oferecia os seus conhecimentos de engenharia militar e de concepção de uma grande diversidade de armamento, para ser usado contra os seus inimigos em terra e no mar. A missiva era, de facto, a apresentação do seu vasto currículo em matéria de realizações práticas, e não de meras abstracções artísticas. Vale a pena, por isso, citar algumas das suas propostas:



No cockpit de qualquer avião existe um instrumento destinado a indicar a sua posição em relação à horizontal (na foto, do lado esquerdo). Da Vinci concebeu o inclinómetro exactamente para ser usado nas máquinas voadoras que desenhou

«Tenho uma série de pontes extremamente leves e fortes, aptas a serem facilmente transportadas, e com elas pode perseguir e em qualquer altura fugir do inimigo».

«Se a batalha for no mar, tenho grande variedade de máquinas muito eficientes para ataque e defesa; e barcos que poderão resistir ao ataque de grandes armas e pólvora e fumos».

«Em caso de necessidade farei grandes armas, morteiros e artilharia de formas refinadas e úteis, diferentes dos modelos comuns».

O duque ficou convencido e contratou os seus serviços entre 1483 e 1499, provavelmente os 16 anos mais inventivos do homem mais brilhante da Renascença.

Texto de VIRGÍLIO AZEVEDO

http://www.mecanicaonline.com.br capa capa créditos imprimir adicione aos favoritos fale conosco fale conosco