| ESPECIAL
- ONZE ANOS SEM SENNA
Dirigindo
para ser o melhor
Que Michael Schumacher estatisticamente
possa ser um dos melhores pilotos da Fórmula 1 que
já existiu, isso pode ser verdade, mas para quem
assistiu Ayrton Senna nas pistas, é difícil
comprarar e encontrar que pilote da sua forma e modo.
A grandeza de Ayrton Senna não se mede em estatísticas,
mas sim em seu registro de corridas. Senna era determinado
pelo sucesso, e sendo assim sempre conduziu de forma a buscar
o limite do carro, o limite da máquina.
ESTATÍSTICAS
DA CARREIRA
Corridas: 162
Vitórias: 41
Pole Position: 65
Campeonatos de piloto: 1988, 90, 91,
Times: Toleman, Loto, McLaren e Williams
Nascido: 21/3/60 (em São Paulo, Brasil)
Morto: 1/5/94 (Imola, Itália)
GP de Mônaco de 1984, show sob chuva violenta
- Alain Prost larga na frente mas Nigel Mansell,
então um obscuro piloto inglês, toma-lhe a
liderança na 10ª volta. Era a primeira vez na
vida que ele liderava uma corrida e, sintomaticamente, bate
logo depois. Sua explicação: derrapou ao frear
sobre a faixa que divide a rua...
Senna,
pilotando um Toleman, ganha cinco posições
na primeira volta, depois de largar em 14º. Na 10ª,
já é 6o, na 15a 3o, e na 19a 2o, 35 segundos
atrás de Prost, que voltara à liderança.
Dez voltas depois, a diferença caíra para
11,7 segundos. Era apenas uma questão de tempo para
Senna alcançar o francês. Ele realmente ultrapassa
Prost na volta 32 mas o resultado da corrida seria o da
passagem anterior. A chuva aumentara ainda mais e Jacky
Ickx, diretor da prova, decide interrompê-la. Ickx
não precisou justificar a sua atitude: o regulamento
dava a ele o direito de interrompê-la em situação
perigosa. Mas podia-se discutir à vontade porque
o fez na volta 31.
A chuva apertara há relativamente poucos minutos
e Ickx podia ter esperado mais duas ou três voltas
para tomar uma decisão. Certamente colaborou para
a interrupção o fato da prova ser liderada
com certa folga - até o momento - por um piloto influente
de uma equipe influente. Também contribuiu o fato
de um garoto que ninguém conhecia, vir descontando
a diferença numa velocidade alucinante num carro
que ninguém levava realmente a sério.
Contribuiu ainda para a interrupção o fato
de oito carros já terem batido, ainda que sem consequências
mais sérias. Uma corrida em Mônaco já
é uma overdose de stress para quem a organiza. Com
chuva, então, é como brincar com fogo. Ickx
talvez tenha pensado: todo mundo já se divertiu,
Prost vai ganhar, o tal Senna vai ter mais do que poderia
sonhar, ninguém se machuca e ainda vamos para a casa
mais cedo. Talvez tenha sido só isso. Talvez tenha
sido apenas pressão da McLaren ou uma reação
natural ao choque de ver um menino correndo para a vitória
daquele modo e naquelas circunstâncias na sua 5ª
corrida. Mostrava ali que um grande piloto surgia para fazer
história na Formula 1
GP de Portugal de 1985, a primeira vitória
- Em 85, Senna corre pela Lotus equipada com motor
Renault e chega a sua primeira vitória no GP de Portugal.
Ele faz a pole, a primeira de uma longa série, melhorando
em sete décimos o tempo do ano anterior.
O motor do Lotus explodiu no warm up, levando junto o câmbio
e parte da suspensão. Foi preciso trabalhar muito
e rápido para aprontar o carro para a largada. Não
havia como ter certeza de que estava tudo em ordem. Senna
teria de ir para a corrida sem saber se o carro sequer sairia
do lugar. E aí veio a chuva. Ele não tinha
feito nenhum treino com o Lotus e com os pneus Goodyear
sob chuva.
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A chuva forte durou toda a corrida. Como na primeria vitória
de Piquet, se tratou de uma corrida sem graça. Senna
dominou-a desde o primeiro metro, nunca foi pressionado
nem teve qualquer problema com o carro. Ele simplesmente
foi embora, sem dar qualquer esperança aos outros
pilotos.
Foi recebido como um herói pela equipe Lotus, e
encerrava um jejum de três anos sem vitórias.
Senna vai vencer, de novo sob chuva, o GP da Bélgica,
em Spa-Francorchamps. Poderia ter vencido também
em San Marino e Inglaterra mas fica sem combustível
a poucas voltas do final. Naquele ano, pela primeira vez
na história da Fórmula 1, as autoridades esportivas
haviam imposto um limite de consumo de combustível
- 220 lts - para um GP. Senna, pelo seu estilo de pilotagem,
era um piloto particularmente gastador de gasolina. Ele
liderou também em Mônaco, Detroit e Alemanha
mas quebra ou se atrasa.
Mas esta era apenas uma parte do show. Senna marcará
a pole ou o 2º tempo nos treinos de nove das 14 provas
seguintes a Portugal. Vê-lo disputar a pole será
um espetáculo à parte pelo resto da sua carreira.
GP dos Estados Unidos de 1986, o retorna da alegria
- Ayrton Senna tinha uma missão no GP dos
EUA, em Detroit. Na véspera da corrida, a seleção
brasileira perdeu para a França nos pênaltis
e foi eliminada da Copa do México. Os brasileiros
viraram-se então para Senna, torcendo para que ele
derrotasse o francês Alain Prost e vingasse o fracasso
no futebol. A prova foi disputada: ele dividiu a liderança
com Nigel Mansell, René Arnoux e Jacques Laffite,
mas, ao fim, levou a melhor, desfilou com a bandeira nacional
pelo circuito americano e aliviou a dor dos torcedores.
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GP do Japão de 1988, o primeiro título
mundial - Senna e Prost ocupavam a primeira fila
na largada do GP do Japão. Luz verde e o inusitado
acontece: o carro de Senna tem o equivalente a um soluço.
Dura três, quatro, cinco segundos, o suficiente para
14 carros passarem pelo brasileiro. Senna conseque retomar
velocidade e recupera seis posições na primeira
volta. Na 2ª, já passa em 6º, nove segundos
atrás de Prost. Mais uma volta e começa uma
garoa leve que obrigou o francês a reduzir seu ritmo.
Quando os dois McLaren aparecem na mesma reta, na 27ª
volta, o público se levanta. Não importava
que Prost tivesse problemas com o seu carro. Importava que
Senna, um ídolo tão grande para os japoneses
quando para os brasileiros, tinha recuperado tudo o que
perdera naquela largada desastrada e ia ganhar e ia ser
campeão - O Campeão.
Ao receber a bandeirada, Senna esmurra o próprio
capacete numa comemoração muito parecida com
a de Portugal, em 85, como se depois daquela vitória,
só o título merecesse ser comemorado.
GP
do Japão de 1990, o bicampeonato com gostinho de
vingança - Ayrton Senna conquistou seu
bicampeonato no penúltimo GP da temporada de 1990.
Foi em Suzuka, no Japão, que o brasileiro deu o troco
no rival Alain Prost, que um ano antes havia vencido o campeonato
de forma pouco ética. Naquele GP, o francês
"fechou a porta" quando Senna, nas voltas finais,
tentou ultrapassá-lo. Houve o choque e os dois saíram
da pista.
Senna ainda voltou ajudado pelos comissários, mas
acabou desclassificado. Um ano depois Senna deu o troco
na mesma moeda e local. Prost precisava da vitória
para levar a decisão para o último GP, na
Austrália, e também não podia provocar
um incidente com Senna, já que desta vez o prejuízo
seria seu. O suspense durou menos de dez segundos. A Ferrari
do francês, que largou na segunda posição
do grid, conseguiu tomar a dianteira, mas Senna forçou
o carro e entrou por dentro na tomada da primeira curva.
Então nenhum dos dois deu o braço a torcer.
A roda direita traseira da Ferrari tocou na dianteira esquerda
da McLaren e os carros saíram da pista, fazendo uma
imensa nuvem de areia. A corrida não foi paralisada
e Ayrton conquistava o bicampeonato mundial de F-1.
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GP do Brasil de 1991, a primeira vitória
em casa - Senna já era bicampeão
mundial (1988 e 1990), e ainda não havia vencido
em casa. A vitória era um objetivo fixo do campeão.
As Williams, pilotadas por Nigel Mansell e Ricardo Patrese
eram mais rápidas, impulsionadas pelos motores Renault,
que começavam a despontar como concorrentes sérios
aos até então imbatíveis Honda que
equipavam a McLaren de Senna. A disputa pela pole position
foi um prenúncio do que seria a prova. Senna conseguiu
a pole na última volta, marcando 1m16s392, contra
1m16s775 de Patrese.
A corrida começou com Senna na liderança
e Mansell em segundo. Os pit-stops seriam determinantes.
O da McLaren foi perfeito, assim como o da Williams. Mas
Mansell, com um pneu avariado, teve que fazer uma segunda
parada, o que deu a Senna alguns segundos de vantagem sobre
Patrese, que assumiu a segunda colocação.
Neste momento, os problemas mecânicos começaram
a aparecer no carro do brasileiro. Primeiro, Senna perdeu
a quarta marcha, tendo assim, que passar da terceira direto
para a quinta.
Depois, nenhuma marcha funcionava sem que o piloto brasileiro
tivesse que segurar a alavanca de marchas para que ela permanecesse
engatada. Senna teve que segurar a alavanca de câmbio
com a mão direita e pilotar com a esquerda. Mansell
novamente se aproximara, mas na 60ª volta, o inglês
cometeu um erro que deu a Senna um pouco mais de esperança
de, após sete tentativas, vencer o GP Brasil.
Mas, subitamente, a sete voltas do final, Senna, que tinha
grande vantagem sobre Patrese, passou a perder sete segundos
por volta, já que nenhuma marcha mais entrava. O
brasileiro, desesperado, tentou engatar a sexta marcha e,
por pura sorte, ela entrou. Foi aí que Senna percebeu
que teria que terminar o GP Brasil de 1991 com apenas uma
marcha, a sexta, enquanto a Williams de Patrese se aproximava
velozmente.
O italiano, informado que Senna tinha problemas, tentou
aproximar-se, mas seu carro também não estava
em condições ideais. Ele tirava de dois a
três segundos por volta, mas isso não era o
suficiente para chegar em condições de ultrapassar
Senna. Faltando duas voltas para o final, começou
a chover em Interlagos, o que acabou decidindo a corrida.
Patrese preferiu não arriscar-se e tratou de garantir
o segundo lugar. Mas Senna não sabia disso, e, com
um esforço imenso, levou o carro à bandeirada
de chegada.
Após cruzar a linha final, Senna permaneceu no carro,
sem forças para sair. Depois, auxiliado, entrou em
um carro da organização e foi para os boxes.
No pódio ficou evidente seu esforço para obter
a vitória. Ele mal conseguiu levantar a taça,
precisando da ajuda de Ron Dennis, para delírio da
torcida.
GP do Japão de 1991, o tricampeonato e
a consagração - No dia 20 de outubro
de 1991, a Fórmula 1 conhecia o seu mais novo tricampeão
mundial. Novamente no circuito de Suzuka, no Japão,
Ayrton Senna disputava o título da temporada com
o inglês Nigel Mansell, da Williams, que, logo na
10ª volta, abandonou a prova com problemas no freio.
Daí para frente Senna deu um show e comemorou em
grande estilo o tri. Na volta final, quando liderava folgadamente,
num gesto de companheirismo - ou por imposição
da equipe - cedeu passagem ao seu amigo e companheiro, o
austríaco Gerhard Berger, que assim conquistava sua
sexta vitória na F-1.
Senna, então, entrava para o seletíssimo
grupo dos tricampeões mundiais e também era
o mais jovem piloto a conquistar essa façanha na
história da F-1. E ao lado de Nélson Piquet
colocou o Brasil numa situação invejável
no automobilismo mundial: era o único país
a ter dois tricampeões mundiais de F-1. Ainda no
campeonato de 91, no último GP da temporada, Senna
ganhou a corrida e quebrou um tabu de nunca vencer a prova
de Adelaide, na Austrália. De passagem ainda deu
o tetracampeonato mundial de construtores para a McLaren.
GP da Europa de 1993, a primeira volta mais fantástica
da história da F1 - Foi assim que Senna
descreveu aquela memorável vitória:"Chovia
muito. Larguei em quinto mas a primeira volta foi um tiro
psicológico na concorrência. Fui espremido
pelo Schumacher, tive que colocar duas rodas fora da pista,
passei o alemão antes da primeira curva e mergulhei
à cata de Damon Hill. Passei o inglês na freada.
A próxima vítima era Prost. Esperei as curvas
duplas do S e como ele freou antes do normal, abriu uma
brecha por onde me meti.
Com 18 voltas, a pista secou e todos pararam para colocar
os pneus slicks. Resolvi pisar fundo para fugir do Williams,
mas fiquei entre a cruz e a espada. Afinal, é arriscado
ser rápido com pneus de seco no asfalto úmido.
Mas se diminuísse o ritmo os pneus perderiam pressão
e temperatura e o carro ficaria sem aderência.
Ainda tive problemas nos pit stops. No terceiro, uma roda
traseira direita travou e a parada me pareceu uma eternidade.
No instante de voltar a colocar pneus de chuva, o rádio
não funcionou, não me ouviram, entrei e passei
direto pelos boxes, sem efetuar a troca. E, para aumentar
o suspense, fui avisado que tinha problemas de consumo.
Mas como meu tanque vazou no grid e não houve tempo
para reparar, ele ficou selado, o que impossibilitaria reabastecer.
Como a gasolina estava no limite mudei o estilo de pilotar:
trocava as marchas em rotações mais baixas,
aliviava o pé antes das entradas das curvas e freava
com menos ímpeto. Ufa! Foi assim que cheguei vitorioso
e exausto no final das 76 voltas, uma à frente do
Professor Prost".
GP
do Brasil de 1993, Senna nos braços do povo - No
GP de 28 de março de 1993, no Brasil, em Interlagos,
Ayrton Senna conseguia sua segunda vitória em casa,
a 37ª na carreira e a 31ª na equipe McLaren. Nesta
corrida, o rival Alain Prost liderava e, quando começou
a chover forte, o francês não trocou os pneus,
bateu em Christian Fittipaldi e saiu da corrida.
Senna então aproveitou e foi ganhando posições
até ultrapassar o inglês Damon Hill para assumir
a liderança e vencer o GP. Mas na penúltima
volta, a luz que acusa a pressão de óleo acendeu.
O piloto tremeu e não olhou mais para o painel de
instrumentos. Ao entrar na reta começou a rezar e
ainda estava em preces quando o motor apagou, felizmente
50 metros depois da bandeirada.
Como disse Senna: "Quando Deus quer ..." Foi
uma vitória inesquecível que mereceu uma comemoração
inédita: pista invadida pelos torcedores e Senna
carregado pela multidão. O piloto brasileiro foi
simplesmente arrancado do carro e comemorou a vitória
nos braços da eufórica e imensa torcida brasileira
presente em Interlagos.
Senna: Enfim o Rei de Mônaco - Antes
da corrida avisaram a Damon Hill que Ayrton Senna poderia
vencer pela sexta vez e tirar do seu pai, Graham Hill, que
tinha cinco vitórias, a coroa de "Rei de Mônaco".
O inglês apenas ouviu. Mas não parecia uma
tarefa fácil para o brasileiro.
Alain Prost, pole, e Michael Schumacher (Benetton-Ford)
dominaram a primeira fila de largada. Senna, que partiu
em terceiro, achou que a prova foi até tranqüila.
Cuidou-se para evitar erros nas trocas de marcha ou na ultrapassagem
de um retardatário e desfilou para o recorde de seis
vitórias no principado. Fez questão de dizer
que teve um prazer especial em ultrapassar Prost duas vezes
e colocar uma volta de vantagem sobre o rival.
"Ainda apertei o ritmo para evitar surpresas".
No pódio, Senna ficou feliz com a elegância
de Damon Hill, o segundo colocado. "Parabéns
Rei de Mônaco. Se meu pai fosse vivo certamente viria
cumprimentá-lo"
GP da Austrália de 1993, a última
vitória - Havia um clima de saudade no austero
boxe da McLaren, mas só Jo Ramirez, coordenador técnico
do time, viu as lágrimas nos olhos de Ayrton Senna,
na última largada do brasileiro pelo time inglês.
"O Jo é um chantagista", acusou Senna,
ao revelar as palavras do mexicano minutos antes da luz
verde.
Ramirez gritou no ouvido de Senna que o piloto já
havia feito demais pela escuderia desde 1988. Era tricampeão
e vencera 34 corridas pela McLaren, mas aquele seria um
triunfo muito especial. Não apenas pela despedida,
mas se vencesse somaria 104 vitórias da McLaren na
Fórmula 1, superando o recorde que eles dividiam
com a Ferrari. "Me concentrei muito na largada final,
depois das duas abortadas", contou Senna. "Eu
tinha um olho no Prost, ao meu lado, e outro no retrovisor,
atento ao Damon Hill, que largaria logo atrás de
mim. Afinal, era a minha única pole da temporada
e eu não queria errar".
E não errou. Partiu na frente e começou
seu último show na ruas de Adelaide. Só deixou
a ponta quando parou para trocar pneus na 23ª das 79
voltas. Retomou a liderança na 29ª e cruzou
a bandeirada, consagrando a sua 41ª vitória,
nos 158 grandes prêmios disputados até ali.
"Convivo com o medo de morrer e ele me fascina."
(1992) - Ayrton Senna
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morte que chocou o mundo
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de maio de 1994
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para ser o melhor
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de Senna
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